Costureiras se tornaram símbolo da luta após horrores de terremoto no México

  • Por Agencia EFE
  • 19/09/2015 08h01

Paula Escalada Medrano.

Cidade do México, 19 set (EFE).- Aos 67 anos, Guadalupe Conde passou metade da vida costurando e a outra lutando pelos direitos das costureiras, a quem o terremoto de 1985 massacrou e cujas sobreviventes aprenderam o que significava a exploração do trabalho e a arte de se defender.

“Não pedimos uma viagem à lua. Simplesmente reivindicamos o que determina a lei, não estamos pedindo mais peso a nenhum patrão”, dizia uma Conde 30 anos mais jovem, para a câmera da documentarista Maricarmen de Lara, durante um protesto em frente à Secretaria de Trabalho.

Hoje ela vê naqueles dias de luta o sacrifício necessário para que a perda de tantas vidas (pelo menos 600 costureiras morreram presas nas fábricas) tivesse um mínimo sentido.

“Abriram nossos olhos. Tivemos que ver todo esse sangue para podermos nos defender”, contou à Efe em entrevista na sede da Associação Costureiras e Costureiros 19 de Setembro, muito perto do metrô de San Antonio Abade.

Nessa região, localizada na colônia operária da capital mexicana, se localizava a maioria das oficinas de costura em que trabalhavam milhares de pessoas, especialmente mulheres, na década de 80.

O terremoto de 19 de setembro de 1985 destruiu mais de 800 fábricas, grande parte delas clandestinas, onde milhares de mulheres trabalhavam sem nenhum tipo de direito social. Mais de 40 mil costureiras ficaram sem trabalho e sem direito a indenização.

Conde contou alguns detalhes sobre as condições de seu trabalho. Nos banheiros não havia espelho, papel, água, eram apenas três para 70 pessoas. Dez horas de trabalho, com 30 minutos para comer.

Muitas costureiras morreram porque, para evitar roubos, os chefes fecharam a porta com chave e elas não conseguiram fugir. Muitos edifícios que abrigavam oficinas desabaram porque não estavam preparados para suportar o peso do maquinário de costura e, principalmente, dos enormes rolos de tecido.

“Era muito peso para os edifícios”, afirmou Conde, que naquela época trabalhava em uma fábrica na rua Frei Servando, cujo primeiro andar afundou. Ela se salvou porque entrava às 8h e o terremoto aconteceu às 7h19.

A desproteção das costureiras foi tamanha que as fez reagir. Muitas observaram como seus patrões tiravam os rolos de tecido e as máquinas antes de ajudar as sobreviventes e de retirar os corpos das mulheres.

“Dentro estavam as sobreviventes gritando que queriam água e os patrões estavam tirando os tecidos. Eu não ouvi isso, eu as vi saírem, mortas, sem um arranhão, dez ou 11 dias depois”, desabafou Conde.

Dezenas de mulheres “morreram de sede e de fome e porque faltava ar para respirar”, chamadas de “as afogadas”.

Assim, vendo como os patrões levavam a única coisa que podia garantir ganhar uma indenização, as sobreviventes organizaram um acampamento e se postaram ali por meses.

Elas formaram a União de Costureiras em Luta e a Coordenadoria de Costureiras do Centro para impedir que os donos levassem o maquinário resgatado e que as autoridades as desalojassem.

As costureiras caminharam até a residência presidencial e foram recebidas pelo então presidente, Miguel de la Madri. Alcançaram muitos de seus objetivos.

Concepción Guerrero, costureira de 68 anos, contou à Efe que as trabalhadoras de sua oficina foram indenizadas pelo patrão, mas só por causa da pressão que existia.

Desta luta acabou surgindo o sindicato de costureiras, liderado por Evangelina Corona, que chegou a ser deputada federal nos anos 90.

Em seu comitê participou também Guerrero, e esse foi o final de seu trabalho como costureira, já que “todas as que ficaram no comitê do sindicato apareceram nos jornais, e quando cheguei ao trabalho, me disseram que já não podia entrar”, lembrou.

Hoje, na região de San Antonio Abade, onde antes havia uma fábrica de 12 andares que desabou, ergueram um banco. No lugar onde estava a Topeka, uma das oficinas onde morreram mais mulheres, há um terreno baldio.

Porém, algumas das oficinas de antigamente continuam de pé, e ali, denunciou Conde, ainda se trabalha sob condições muito distantes do que elas reivindicam há três décadas. EFE

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