CPI ouve estudante que sofreu tentativa de estupro em universidade de São Paulo

  • Por Agência Brasil
  • 17/12/2014 21h24

Na primeira reunião da comissão parlamentar de inquérito (CPI) que investiga violações e abusos nas universidades paulistas, instalada hoje (17) na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), os deputados ouviram uma vítima de violência na Universidade de São Paulo (USP). O depoimento foi de uma estudante do quarto ano do curso de geografia da USP (o nome foi omitido a pedido dos deputados que compõem a CPI), que contou ter sido vítima de uma tentativa de estupro no estacionamento da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da universidade, no Campus Butantã, por volta das 16h, em horário escolar. “Foi uma tentativa, ele [agressor] não chegou a concretizar [o ato] porque cheguei a me desvencilhar antes. Ele bateu minha cabeça na porta para que eu não conseguisse vê-lo e fiquei bastante machucada no rosto. Consegui tocar a buzina com o joelho e ele conseguiu fugir, sem que eu conseguisse vê-lo”, disse.

Segundo a estudante, tudo começou em março deste ano, quando começou a receber bilhetes anônimos e ameaçadores colocados em sua mochila, nos intervalos das aulas. Depois, segundo ela, os bilhetes começaram a aparecer em seu carro. “Sempre tinham novos bilhetes, com ameaças, e diziam que eu ainda seria daquela pessoa. Fiquei com muito medo”. Por causa das ameaças, a universitária decidiu procurar uma delegacia de polícia para registrar um primeiro boletim de ocorrência. Em posse do documento, procurou a chefia do departamento da Faculdade de Geografia e pediu para que o caso fosse relatado nas salas de aula. “Acredito que [o agressor] seja um aluno porque eu recebi esses bilhetes dentro da sala de aula. Provavelmente é alguém do meu curso”.

Em uma tarde de agosto, por volta das 16h,  ela foi até a faculdade para fazer um trabalho em grupo. “Quando desci do carro, fui surpreendida por uma pessoa, que me pegou por trás e me segurou pelo pescoço, me machucando. Foi uma tentativa de estupro. Eram 16h, no estacionamento da FAU. Ele bateu minha cabeça na porta do carro e fugiu”, relatou.

Depois desse fato, a estudante voltou a procurar a delegacia de polícia e abriu um novo boletim de ocorrência. A polícia lhe disse que não havia muito a fazer, já que ela não conseguiu reconhecer o agressor. E até a aconselhou a tentar fazer uma emboscada ao agressor com seus amigos. Ela também foi orientada a buscar imagens em câmeras de segurança na faculdade, o que foi feito. Mas constatou que as mais de 50 câmeras instaladas no campus não funcionam há mais de um ano. A estudante disse que também procurou a direção do departamento da faculdade mas, segundo ela, não houve resposta. “A direção do departamento não fez nem passagem em sala de aula [para falar sobre o caso]. Não tive qualquer apoio”, disse. “A resposta que recebi de diversos órgãos dentro da USP é de que seria encaminhado para a segurança do campus, mas ficou por aí. Além disso, não recebi nenhum apoio psicológico ou de segurança para frequentar as aulas”.

Atualmente, a universitária não anda desacompanhada pelo campus, e carrega sempre um sprayde pimenta. Ela também instalou uma câmera em seu carro. “O constrangimento não acaba. Vivo na dúvida e com um medo absurdo”, disse. A estudante também cancelou as disciplinas que fazia no período noturno, o que vai implicar em atraso na conclusão do seu curso. “Só não tranquei o semestre por uma questão de perseverança”, disse.

A mudança dessa situação de violência dentro da universidade, segundo ela, passa por um planejamento na segurança, que deveria priorizar as mulheres que frequentam o campus da USP. “A polícia estava no momento [em que o fato ocorreu]. Quinze minutos depois da tentativa de estupro, a base móvel da polícia passou. Não fui até eles porque estava em choque e extremamente machucada porque fui agredida aquele dia. A polícia já está dentro [do campus]. Sinceramente, a polícia não tem como proteger ou não tem papel nenhum em proteger estudantes dos próprios estudantes. O que parece que falta é uma postura da universidade para proteger as mulheres. A segurança na USP é vista como um todo, mas no meu ponto de vista, a segurança da mulher é uma questão à parte”, destacou. Ela também sugere que sejam feitas palestras nas universidades para tratar sobre a questão do machismo e da segurança da mulher. 

Na primeira reunião da CPI, foi definido que o deputado Adriano Diogo (PT) presidirá a comissão. Também foram aprovados 29 requerimentos, entre eles, o convite para que o reitor da USP, Marco Antonio Zago, preste depoimento.  O diretor da Faculdade de Medicina da USP, Joso Otavio Costa Auler Junior, também foi convocado. “São requerimentos coletivos, e somam mais de 50 pessoas [que serão ouvidas]. Foi aprovado [a CPI] trabalhar no recesso [da Alesp]”, disse Adriano Diogo. Segundo ele, o reitor foi convidado e não convocado a prestar depoimento para a CPI por “uma questão de respeito”. Mas caso ele não atenda ao convite e não compareça à CPI, o convite será transformado em convocação, ressaltou o deputado.

Segundo Adriano Diogo, a CPI vai priorizar a questão da prevenção que a acusação dos agressores, e o resultado da comissão pode até resultar na criação de uma lei para prevenir os trotes violentos e as violações nas faculdades. “O objetivo é tentar contribuir com a legislação. É claro que há coisas que são da legislação federal. Mas o objetivo é estabelecer formas e procedimentos e fazer com que as universidades tirem protocolos de comportamento”, disse.