Detonação de explosivos de guerra torna-se atração turística no Vietnã

  • Por Agencia EFE
  • 02/03/2015 10h10

Eric San Juan.

Dong Ha (Vietnã), 2 mar (EFE).- Milhares de explosivos que não foram detonados durante a Guerra do Vietnã e permanecem em solo vietnamita, representando grande risco para a população, se tornaram um atrativo turístico a fim de conscientizar e divulgar a situação do país.

“Começamos com esses passeios em abril de 2012, em parceria com algumas agências de viagens e já tivemos mais de mil visitantes. Queremos que os turistas estejam cientes sobre o problema das milhares de bombas que não explodiram e continuam provocando acidentes”, disse Nguyen Thanh Phu, porta-voz da ONG Project Renew, que se dedica a prevenir acidentes e dar assistência às vítimas dos explosivos.

Mais de dez mochileiros de cerca de 20 anos escutam as instruções de Phu e dos especialistas antes de presenciarem a detonação de algumas minas encontradas durante o dia perto de Dong Ha, na província de Quang Tri, local mais castigado pelo conflito.

“Nesta província havia uma área desmilitarizada, a fronteira entre o Vietnã do Norte e o do Sul, por isso foi palco dos combates mais intensos”, afirma Phu.

Os jovens são levados para perto de um pequeno buraco, onde as bombas foram colocadas, a cerca de 200 metros da estrada principal.

“Os especialistas vão colocar explosivos no buraco, junto com as bombas. Vamos ligá-los a um cabo e detonaremos tudo de longe, para evitar que estilhaços nos atinjam”, explica Phu, enquanto turistas fotografam tudo com entusiasmo.

O buraco, protegido por sacos de areia marcados com um sinal de “perigo”, contém oito bombas do tamanho de uma de berinjela, enferrujadas e cheias de terra.

Os turistas e o guia aguardam no local onde está o detonador, enquanto os preparativos são finalizados. Um dos turistas foi escolhido para apertar o botão: Michael James, um canadense de 20 anos.

James ouve as explicações novamente e deixa escapar um sorriso de nervosismo. Titubeia, olha para seus companheiros de viagem e finalmente toma coragem para apertar o botão.

O estrondo é menor do que o esperado pelos espectadores, que, através das telas de suas câmeras, observam as antigas minas se desintegrarem em uma nuvem de fumaça.

“Fiquei muito nervoso ao vê-la explodir. É incrível assistir uma coisa dessas e saber que contribuí para destruir algo perigoso para as pessoas daqui. Além disso, gostei da experiência, portanto é bom para todos”, comentou James poucos minutos depois da explosão.

Luis Vales, um engenheiro de 23 anos vindo de Atlanta (Estados Unidos), afirmou que a experiência permite que ele compreenda melhor as consequências da guerra.

“Eu já havia lido sobre esses problemas, mas presenciar a explosão é muito diferente, te mostra o que poderia acontecer caso alguém pisasse naquilo”, disse Vales, que pegou um estilhaço da bomba para levar de lembrança.

Phu está convencido sobre os benefícios dessa mistura de turismo e ajuda humanitária e destaca que já serviu para que alguns visitantes estrangeiros lançassem iniciativas próprias para ajudar as vítimas.

“Em agosto do ano passado um visitante irlandês ficou tão impressionado que organizou uma campanha solidária em seu país e arrecadou mais de R$ 6,5 mil para a nossa organização. É bom que mais gente conheça nossas dificuldades”, explicou o vietnamita.

A Project Renew começou a organizar visitas às casas de algumas vítimas para continuar promovendo a conscientização sobre o problema das minas e bombas da guerra.

De acordo com estatísticas do governo de Hanói, cerca de 6,6 milhões de hectares de solo vietnamita contêm explosivos, uma verdadeira praga que causou mais de 40 mil mortes e deixou 60 mil feridos desde o fim conflito, em 1975.

Mais de 30% das vítimas são crianças, que frequentemente se aproximam dos objetos atraídos pela curiosidade, sem se dar conta do perigo.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos estima que por volta de 10% das 7,8 milhões de toneladas de explosivos lançados no Vietnã não foram detonados.

O governo vietnamita calcula que seriam necessários 300 anos e mais de US$ 10 bilhões para acabar com esta situação, uma meta “impossível” para ONGs como a Project Renew, que investe na limpeza das áreas de maior risco, educação e buscam por atitudes das autoridades locais para a prevenção de acidentes. EFE

esj/lvp/id