Dr. Miguel Srougi critica saúde pública no Brasil e eficácia do Mais Médicos

  • Por Jovem Pan
  • 28/04/2014 12h40

Dr. Miguel SrougiMiguel Srougi

Miguel Srougi, médico urologista, pós-graduado em Harvard, Doutor e livre-docente pela USP, diz que “existe um grande descaso com o SUS no Brasil”. Srougi cita o dado de 286 hospitais que deixaram de prestar atendimento ao Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos cinco anos.

Em entrevista exclusiva à Izilda Alves, da Rádio Jovem Pan, o médico que tem mais de quatro décadas de experiência na rede pública de saúde avalia também os gastos do Governo: “Em 2012, o Ministério da Saúde deveria receber R$90 bilhões, dos quais foram utilizados apenas R$73bi a R$75bi”. Ele também critica o porcentual destinado à Saúde no País. “O Brasil gasta 3,5% do PIB com despesas na saúde, ao passo que outros países desenvolvidos gastam 7%, 8%, 9%, até 10% do PIB nessa área”.

Srougi diz ainda que “a ruína, o horror está nas grandes cidades”. Em um exercício mental, o médico avalia que uma pessoa com câncer que procurasse o SUS demoraria cerca de dois meses para o atendimento, seis meses para o exame radiológico, além de enfrentar fila para cinco, seis, oito meses, um ano até para o tratamento em si.

Outro exemplo de descaso, ou despreparo do sistema de saúde de atender à demanda da sociedade, é bem conhecido por Miguel. No Hospital das Clínicas de São Paulo, um dos mais conceituados do Brasil e cuja principal fonte de pacientes é o SUS, há uma espera de seis meses a um ano para a internação no campo da urologia, o qual Srougi chefia.

Além disso, “até quatro ou cinco meses atrás, havia 200 doentes com câncer esperando na fila para entrar lá (no HC), 160 crianças, para internar, quer dizer, para serem operados, não é para serem atendido no ambulatório”, reclama o doutor.

Mais médicos e…

O urologista põe em xeque o programa nacional Mais Médicos, que financiou a vinda de médicos cubanos para atuar nas regiões mais isoladas e abandonadas do País, em questão de saúde. “Jogaram esses médicos nas cidades pequenas, esses médicos não têm capacidade resolutiva”, lamenta Srougi.

“Toda vez que vão bater uma foto deles eles aparecem abraçando alguém da cidade, as pessoas ficam felizes de ter lá um médico. Para eles não interessa se fala a língua ou não. E se eles tiverem uma diarreia, uma tosse, eles vão no médico e são atendidos, e recebem um remediozinho que um farmacêutico poderia dar”, releva o livre-docente da Universidade de São Paulo.

Porém, “quando surge um problema grave, o que esse médico vai fazer?”, questiona Srougi. “Se chegar um doente com dor no peito, o que esse médico vai fazer? Ele não tem eletro(cardiograma) à disposição. Se tiver, ele não vai saber ler o eletro, porque ele não é qualificado para isso. Se ele desconfiar que é um infarto, ele não vai conseguir tratar, porqueu um lugar carente, abandonado e degradado não tem sequer remédios para tratar um infarto ou um quadro agudo dessa gravidade. Ele vai mandar para outra cidade? Nessas cidades os hospitais do SUS não têm leito para ele internar”, conjectura o doutor.

“Ele (o paciente) vai para o pronto-atendimento e morre lá, num chão gélido porque nem macas tem nesses hopitais”, lastima Srougi.

“A situação de degradação é muito ampla, esse sistema de saúde nosso está devastado”, diz o médico. “O SUS é um processo bem idealizado, mas que não é cumprido e respeitado”, avalia.

“Os governantes vêm enganando a população, mentindo e ainda fazendo propaganda que não é verdadeira”, conclui Miguel Srougi.