Banco Central corta Selic pela 9ª vez e taxa cai para 2% – a menor da história

Economistas esperavam que a redução de 0,25 ponto fosse a última do atual ciclo de estímulo monetário, mas, no comunicado, o Copom não fechou a porta para cortes adicionais; ‘Essa redução tem benefício mínimo’, diz Zeina Latif

  • Por Alessandra Kianek e Gabriel Bosa
  • 05/08/2020 18h20 - Atualizado em 06/08/2020 08h01
Charles Sholl/Futura Press/FolhapressBanco Central reduz a taxa Selic pela nona vez consecutiva

Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, reduziu, nesta quarta-feira, 5, a taxa básica de juros da economia brasileira de 2,25% para 2% ao ano, o menor percentual da Selic desde 1999, quando entrou em vigor o regime de metas para a inflação. Foi o nono corte consecutivo desde que a autoridade monetária iniciou esse ciclo de redução, em julho de 2019. Na época, a taxa estava em 6,5% e teve um corte de 0,5 ponto percentual, para 6% ao ano. Para muitos economistas, esta deve ser a última redução dos juros no atual ciclo de estímulo monetário pelo menos até dezembro. “O Banco Central já poderia parar nesse ciclo de cortes de juros. Poderia ter parado até um pouco antes para analisar e avaliar a repercussão das decisões recentes”, afirma a economista e consultora Zeina Latif.

Apesar de a decisão ter sido tomada em um momento de forte redução do nível de atividade econômica devido à pandemia da Covid-19, a maioria dos economistas ouvidos pela Jovem Pan afirma que a queda terá um impacto pequeno na economia. O Brasil vem sofrendo há anos uma estagnação da atividade econômica, o que tem mantido a inflação a níveis controlados. Para este ano, porém, com o advento da pandemia do coronavírus, economistas projetam um tombo de cerca de 6% para o Produto Interno Bruto (PIB). Por outro lado, a inflação segue baixa diante de um consumo ainda fraco por causa da pandemia – analistas projetam um IPCA de 1,6% no final deste ano. “Essa redução tem um benefício mínimo. Já descobrimos que juro baixo é bom, mas não resolve todos os nossos problemas. Temos questões estruturais que vão muito além do poder da política monetária. E política monetária é aquela calibrada com impacto de curto prazo, não é o que vai fazer o país ter um crescimento mais robusto”, completa Zeina.

No comunicado divulgado na noite desta quarta-feira, porém, o Banco Central não fechou a porta para possíveis novos cortes da taxa de juros. “Devido a questões prudenciais e de estabilidade financeira, o espaço remanescente para utilização da política monetária, se houver, deve ser pequeno. Consequentemente, eventuais ajustes futuros no atual grau de estímulo ocorreriam com gradualismo adicional e dependerão da percepção sobre a trajetória fiscal, assim como de novas informações que alterem a atual avaliação do Copom sobre a inflação prospectiva.” Logo mais adiante, no texto, o colegiado informou: “O Copom não antevê reduções no grau de estímulo monetário, a menos que as expectativas de inflação, assim como as projeções de seu cenário básico, estejam suficientemente próximas da meta para o horizonte relevante de política monetária”.

O que é Copom

Comitê de Política Monetária (Copom) é um órgão constituído em 1996 no âmbito do Banco Central do Brasil com as finalidades de estabelecer as diretrizes da política monetária e definir a taxa básica de juros da economia brasileira. Tem, ainda, a competência específica de regular a liquidez da economia, por meio dos instrumentos de política monetária. O Copom se reúne a cada 45 dias. No primeiro dia do encontro, são feitas apresentações técnicas sobre a evolução e as perspectivas das economias brasileira e mundial e o comportamento do mercado financeiro. No segundo dia, os membros do colegiado, formado pela diretoria do BC, analisam as possibilidades e definem a Selic.

O que é Selic

A Selic é a taxa básica de juros do Brasil. Os juros são usados pelo Banco Central como uma ferramenta para tentar controlar a inflação, pois a alta ou queda dos juros influencia o consumo das famílias e a tomada de crédito no país. De modo geral, quando a inflação está alta, o BC sobe os juros para reduzir o consumo e forçar os preços a cair. Quando a inflação está baixa, o BC derruba os juros para estimular o consumo. A Selic tem influência em todas as taxas de juros do país, como dos empréstimos, financiamentos e das aplicações financeiras. Quando o BC altera a meta da Selic para baixo, a rentabilidade dos títulos atrelados a ela cai e, com isso, o custo dos bancos também diminui. Assim, uma redução da Selic, por exemplo, deve fazer com que os juros cobrados pelas instituições financeiras em empréstimos também caiam. O contrário ocorre quando a Selic sobe: o custo dos bancos sobe e eles passam a cobrar mais pelos empréstimos.