BC corta Selic pela 8ª vez e taxa de juros cai a 2,25% ao ano – a menor da história

Para economistas, queda terá pouco impacto na atividade econômica; especialistas veem movimento como “protocolo do BC para o sistema de metas de inflação”

  • Por Carolina Fortes
  • 17/06/2020 18h06 - Atualizado em 18/06/2020 10h37
Reprodução Analistas consultados pelo Banco Central renovaram as previsões para a recuperação da economia em 2021 Copom reduz taxa básica de juros da economia brasileira de 3% para 2,25% ao ano, o menor percentual da Selic desde 1999

O Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, reduziu, nesta quarta-feira, 17, a taxa básica de juros da economia brasileira de 3% para 2,25% ao ano, o menor percentual da Selic desde 1999, quando entrou em vigor o regime de metas para a inflação. Apesar de a decisão ter sido tomada em um momento de forte redução do nível de atividade econômica devido à pandemia da Covid-19, economistas ouvidos pela Jovem Pan afirmam que a queda terá um impacto pequeno na economia.

O Brasil vem sofrendo há anos uma estagnação da atividade econômica, o que tem mantido a inflação a níveis controlados. Para este ano, porém, com o advento da pandemia do coronavírus, economistas projetam um tombo de cerca de 7% para o Produto Interno Bruto (PIB). E, com a forte diminuição da atividade econômica, os preços têm caído. Em maio, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou deflação de 0,38%. Além disso, nesta terça-feira, 16, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que as vendas no varejo brasileiro caíram 16,8% em abril na comparação com março. Apesar desta redução na Selic indicar que o governo busca uma reativação da economia, na opinião do ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é uma manobra neutra, que “não vai adiantar em nada”.

“Esse protocolo do sistema de meta de inflação é usado em situações normais do ciclo, e não vivemos uma situação de normalidade por causa da pandemia”, afirma Mendonça de Barros. “Isso terá zero impacto na economia brasileira, tanto no macro como no micro. Essa recessão é diferente porque foi provocada pela quarentena, foi um hiato de renda na economia, no faturamento das empresas e na renda do consumidor. Nunca tinha acontecido dessa forma”, completa, citando a previsão dada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) de que a economia mundial deve terminar este ano com a maior recessão desde a Grande Depressão, em 1929. Além disso, o ex-ministro afirma que a dinâmica da crise não será alterada, pois o sistema bancário “não repassa o ganho” com a queda da Selic. “Para o empresário ou consumidor, não terá efeito nenhum, porque esse dinheiro não chega na ponta final”, completa.

O economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicola Tingas, afirma que apesar do impacto da queda da Selic ser aritmético, ele é mais reduzido, porque o Brasil já está com uma taxa muito baixa de juros. “O que psicologicamente vai acontecer é uma percepção muito próxima da inflação esperada, que será bem menor esse ano. Então, as pessoas poderão ou aplicar dinheiro em investimentos de juros baixos ou buscar correr riscos. O impacto nos empréstimos vem vindo desde lá trás, então, acredito que dessa vez, será mais psicológico”, afirma.

Os especialistas afirmam que a diminuição de 0,75 ponto percentual foi feita devido ao protocolo de ação do Banco Central, que trabalha com um modelo de meta da inflação. Como ela tem caído nos últimos anos e está abaixo do esperado em 2020, o ajuste da Selic precisa ser feito para que fique mais próxima do piso, definido pelo Copom em 4% para este ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. “É um ajuste técnico, porque a inflação e a atividade econômica estão muito baixas. É uma convergência entre inflação e juros”, explica Tingas. O Copom deve realizar mais um corte na taxa na próxima reunião, que será realizada em agosto, segundo o ex-ministro Mendonça de Barros. Depois, segundo ele, o banco deve encerrar o ciclo.

Cenário futuro

Na avaliação de Tingas, o BC deve acompanhar com cautela o cenário complexo que o Brasil tem pela frente, causado pela pandemia do novo coronavírus, pelo cenário indefinido no exterior e pelas incertezas políticas. “Política monetária sozinha não faz milagre. O cenário atual é complexo e depende de uma habilidade fiscal muito grande. As contas já estavam mal e pioraram com os pacotes de socorro econômico durante a pandemia. A decisão do BC é para reduzir o impacto que já está dado na trajetória da dívida. De resto, tem toda uma agenda que depende também do Congresso”, destaca.

Para Mendonça, a recuperação econômica brasileira deveria vir por parte do governo de forma mais incisiva, por meio de um pacote fiscal, semelhante ao que foi adotado na Alemanha. Pela primeira vez desde 2013, Berlim vai tomar um empréstimo para arcar com um pacote de 750 bilhões de euros, a fim de proteger trabalhadores e empresas em meio à crise do coronavírus. De acordo com o ex-ministro, no Brasil, as soluções seriam reduzir impostos para as empresas e criar um pacote de ajuda para colocar dinheiro direto no caixa das companhias, o que resolveria grande parte do problema dos consumidores, que voltariam a ter poder de compra. Além disso, seria necessário liberar crédito para que as empresas pudessem fazer empréstimos. “O Tesouro deveria tomar dinheiro emprestado e reemprestar esse dinheiro para as pessoas e empresas. Isso faria com que a economia, a partir da reabertura, pudesse recuperar uma velocidade de escape”, conclui.

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