Brasil tem oportunidade ‘secular’ de se beneficiar com efeitos da guerra, diz Campos Neto

Presidente do Banco Central cita mudanças na conjuntura global e impactos para as exportações; conflito no Leste Europeu, no entanto, deve levar a maior período de baixo crescimento e inflação pressionada

  • Por Jovem Pan
  • 23/03/2022 12h54
Edilson Rodrigues/Agência Senado Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, afirma que inflação deve ser tratada com serenidade e firmeza

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou nesta quarta-feira, 23, que o Brasil pode se beneficiar com os efeitos do conflito entre a Ucrânia e a Rússia, apesar de a guerra gerar menos crescimento e mais inflação em todo o mundo. Ao comentar sobre as transformações mundiais após a crise no Leste Europeu, o chefe da política monetária ressaltou a transformação das cadeias globais de valor e a brecha aberta para a inserção do país nesse novo sistema. “Tem aí uma oportunidade secular para o Brasil, se estiver no lugar certo e com as políticas certas, de entrar nessas cadeias globais de valor”, disse. Campos Neto também citou os efeitos positivos para as exportações do país a alta das commodities de minérios e de alimentos — desde que não haja interrupção no suprimento de fertilizantes. No caminho inverso, a alta dos combustíveis fósseis prejudica pela grande importação do Brasil de derivados do petróleo.

As mudanças nas matrizes do sistema global de valor também deve levar a economia passar por “um período relativamente longo” de crescimento baixo e inflação pressionada. Segundo Campos Neto, as maiores economias do mundo estavam preparadas para encontrar um cenário de depressão ao saírem da crise gerada pela Covid-19, mas encontraram um quadro de recessão. Esta conjuntura, que passou pela injeção de US$ 9 trilhões em 14 meses pelas autoridades monetárias, contribuiu para a disparada da inflação nas maiores economias globais. “As medidas foram feitas pensando em uma situação muito mais grave”, afirmou durante um evento promovido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O presidente do BC voltou a afirmar que o pico da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve ser atingido em abril, para depois iniciar um processo de queda. A variação de preços foi a 10,54% no acumulado de 12 meses em fevereiro. Segundo Campos Neto, a autoridade monetária brasileira saiu na frente dos seus pares globais no aperto dos juros. “O Brasil tem sido mais atuante no combate à inflação, que nós entendemos que é mais persistente. A inflação contaminou os núcleos e hoje está acima das metas em serviço, comércio e indústria. Precisamos endereçar esse problema com serenidade e firmeza”, afirmou. O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC elevou a Selic de 10,75% para 11,75% ao ano na semana passada e indicou novo acréscimo de 1 ponto percentual no encontro agendado para maio, mas deixou a “porta aberta” para a possibilidade ampliar o ciclo de alta. O mercado financeiro estima que os juros encerrem o ano em 13%.