Governo prevê que Auxílio Brasil e investimentos vão equilibrar economia em 2022, diz Afif Domingos

Em entrevista exclusiva, assessor especial de Paulo Guedes afirma que gestão vai encerrar o próximo ano com mais de R$ 1 trilhão em investimentos contratados, por outro lado vê dificuldades em aprovação de reformas

  • Por Gabriel Bosa
  • 01/01/2022 07h00
ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO Guilherme Afif Domingos Afif Domingos, assessor especial de Guedes, afirma que falta consenso para aprovação das reformas

Para combater a iminente desaceleração econômica em 2022 causada pela escalada dos juros, o governo federal conta com a injeção de recursos do Auxílio Brasil e dos investimentos privados para manter as atividades aquecidas, segundo Guilherme Afif Domingos, secretário especial do Ministério da Economia e um dos principais conselheiros do ministro Paulo Guedes. O programa social lançado para substituir o Bolsa Família vai pagar parcelas mínimas de R$ 400 até dezembro, o que dará um empurrão na demanda em meio à corrosão do poder de compra dos brasileiros pela inflação. Já os marcos regulatórios e leilões promovidos pela União nos últimos anos devem contratar R$ 1,2 trilhão em investimento para os próximos dez anos. “À medida que se abrem oportunidades, as pessoas vão investir”, diz Afif em entrevista exclusiva ao site da Jovem Pan.

A reestruturação de empresas atingidas pela crise econômica é um dos pilares dos planos econômicos para os primeiros meses do ano novo. “A vacina fez efeito, agora temos que olhar o outro lado, os que caíram, os falidos. Esses nós temos de levantar”, diz. A equipe econômica mantém a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2022 acima de 2%. O patamar é muito mais otimista da alta de 0,5% prevista pelo mercado financeiro, e também acima do 1% estimado pelo Banco Central. “As coisas não são tão ruins quanto se anunciam, e não tão boas quanto nós desejaríamos, mas vamos ficar em uma média bem razoável”, diz Afif. “O Brasil vai continuar a sua escalada de retomada”, complementa. De acordo o auxiliar de Guedes, as reformas administrativa e tributária “dificilmente serão votadas” nos próximos meses em meio ao ciclo eleitoral, mas isso não impede avanços nas pautas econômicas, como simplificações de tributos. “O que for infralegal nós podemos fazer e estamos fazendo”, afirma. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

O governo tem alguma carta na manga para impulsionar a economia no início de 2022? Está se fazendo um esforço grande em termos de ajudar a recuperar os que caíram no meio do caminho. Tivemos a pandemia, e alertávamos que a preferência era olhar a vida, e foi assim que os governos de União, Estados e municípios enfrentaram o aspecto de segurar as atividades e manter as pessoas em casa. Estamos colhendo o resultado da vacina. Graças a Deus o Brasil está em uma posição superior a de muitos países desenvolvidos pela resposta do povo, que entendeu a gravidade da situação e aderiu ao processo da vacinação. A vacina fez efeito, agora temos que olhar o outro lado, os que caíram, os falidos. Esses nós temos que levantar. Foi aprovado o refinanciamento no Congresso Nacional do renegociamento das dívidas das micro e pequenas empresas, principalmente as dívidas tributárias a serem renegociadas, perdão de multas, perdão de juros. É o primeiro passo para reerguer essas empresas e permitir que elas renasçam. Além disso, teve a grande discussão dos precatórios, e temos o espaço para poder fazer o Auxílio Brasil, que é fundamental para cobrir a outra parte dos efeitos colaterais da pandemia. Tivemos o efeito econômico nas empresas, e na população de baixa renda isso atingiu diretamente na comida. Esse auxílio vai ajudar, e muito, para que essa população possa se manter alimentada. 

O que esperar da economia em janeiro e fevereiro? As pessoas estão efetivamente estimuladas para a vida voltar ao normal, haja visto o movimento das ruas. Mas tem algumas limitações. A limitação é ter uma inflação alta, que diminui o poder de compra. Portanto, pode não se ter o crescimento que gostaríamos de ter, mas não significa que vamos ter recessão. O Brasil vai continuar a sua escalada de retomada. Talvez com menos impulso do que vinha em função das restrições, mas precisamos ganhar a guerra da inflação. Ao ganhar essa guerra, se devolve às pessoas a condição de equilíbrio dos seus orçamentos. Tem também o efeito da injeção dos recursos do Auxílio Brasil. Ainda não dá para mensuramos, mas à medida que ele entra, passa a ser um estímulo de consumo da população, que acaba influindo no processo de crescimento. Também precisa ficar claro que estamos com um volume de entrada de investimentos muito alto através das concessões que estão sendo leiloadas. Se estima que já entrou em compromisso de investimento entre R$ 600 bilhões e R$ 700 bilhões. Quando o governo falou em R$ 1 trilhão de investimento, eles vão acontecer. Há um grande interesse no saneamento básico, na infraestrutura, nos portos, nos aeroportos, no 5G. As coisas não são tão ruins quanto se anunciam, e não tão boas quanto nós desejaríamos, mas vamos ficar em uma média bem razoável.

Como serão feitos os investimentos para atingir esse R$ 1 trilhão? Houve uma mudança no eixo. No Brasil, sempre se esperava o poder público investir, para a alegria das empreiteiras. E agora mudou. As próprias empreiteiras com qualificação têm que se viabilizar como investidoras e operadoras de projetos, buscando sócios e recursos. O Brasil talvez hoje seja um dos maiores canteiros de obra do mundo. Essas mudanças são muito importantes para efeito da entrada dos recursos de investimento. À medida que se abrem oportunidades, as pessoas vão investir.

O ano de 2022 será perdido para as reformas e privatizações? O que pode ser feito na prática? As reformas administrativa e tributária estão sendo exaustivamente debatidas, mas dificilmente serão votadas. Elas têm que ser amadurecidas na discussão nesse ano [em 2022] para serem votadas no início da próxima gestão, como foi a [reforma da] Previdência. Ela foi exaustivamente debatida no governo passado, mas não se conseguiu aprovar, e foi o assunto aprovado no primeiro ano deste governo. As reformas estão mais que amadurecidas na sua necessidade, mas ainda não há consenso da direção.

Até que ponto o Ministério da Economia se adapta ao ciclo eleitoral? Dependemos das decisões políticas. O que for infralegal, podemos fazer e estamos fazendo. O Congresso vai estar focado no processo da renovação. Ano político é ano político.

Diante deste cenário, quais serão as prioridades do Ministério da Economia? Temos que continuar dentro do nosso trilho e trabalhar em cima do que é infralegal. Em matéria tributária, por exemplo, se entrarmos de cabeça no processo da simplificação, na eliminação de obrigações acessórias que atormentam a vida do empreendedor e do cidadão, se fizermos uma limpeza de pauta e de processos que não dependam de mudanças legais, mas de atitudes administrativas, seria um bom ano para trabalhar.

O ministro Paulo Guedes entra em 2022 enfraquecido na comparação com o início do governo? Não. Ele mesmo diz que, até certo ponto, se sente frustrado naquilo que não conseguiu fazer, porém, extremamente gratificado por aquilo que conseguiu fazer. É a história do copo meio ou meio vazio. Tem muita coisa que foi feita e que é importante. 

O Ministério da Economia perdeu a posição de reformista para assumir uma postura de contenção de gastos? Nós fomos atropelados por uma pandemia no meio do caminho, atrapalhou muitos projetos, e nós vamos ter que retomar esse fôlego. Conseguimos manter o Brasil funcionando no meio de uma pandemia mundial catastrófica. O Brasil está funcionando, portanto, é retomar, fazer os reparos e dar velocidade.

Por que o mercado mantém a desconfiança no controle de gastos? O que o ministério pode fazer para reverter este quadro? Existe um grande ruído político, isso gera desconfiança e mexe nos indicadores econômicos. Terminado o processo de precatórios, o ministro tem que ser o guardião do erário. O guardião do Tesouro é aquele que vai permitir que, dentro das regras que foram traçadas, não tenha excesso e abuso em ano eleitoral. Essa é a maior missão do Ministério da Economia, com o apoio da sociedade e da mídia. Tem que ter um controle. Na hora que se enxerga que esse controle está sendo exercido, e que vamos continuar com uma política fiscal séria, vai ter muita melhora dos indicadores. É tão logo as coisas comecem acontecer e os fatos ocupem o lugar dos boatos.