Egito intensifica a repressão e adia transição política

  • Por Agencia EFE
  • 09/12/2014 17h51

Jorge Fuentelsaz

Cairo, 9 dez (EFE).- As novas autoridades egípcias, nascidas após o golpe militar que derrubou o presidente islamita Mohammed Mursi em 2013, optaram por se concentrar na luta antiterrorista, continuar com a repressão e adiar a transição, que deveria ter terminado com a realização de eleições ainda sem data marcada.

Os jovens revolucionários que acenderam o pavio das revoltas de 2011 e a Irmandade Muçulmana, que mais se beneficiaram com elas, continuaram sofrendo detenções e julgamentos que, em sua maioria, foram resolvidos com duras sentenças de prisão.

Para os que participaram dos protestos, as conquistas da chamada Revolução de 25 de Janeiro terminaram de desvanecer em 29 de novembro, quando um tribunal decretou a absolvição do ditador Hosni Mubarak e de seu temido ministro do Interior, Habib al Adli – uma decisão ainda aberta à apelação.

Logo no começo do ano – nos dias 14 e 15 de janeiro-, os egípcios referendavam uma nova Constituição que rebaixava o caráter islamita imposto por Mursi na Carta Magna de 2012 e que reforçava o papel das forças armadas.

O exército reconquistara pouco depois o poder político, do qual tinha sido afastado após 2011, com a vitória nas eleições presidenciais de 26 e 27 de maio de Abdul Fatah al Sisi, ministro da Defesa durante o breve mandato de Mursi.

Em um aparente ato de legitimação pelas urnas, o então novo presidente conseguia também recuperar tanto o apoio do Ocidente como o espaço perdido na comunidade internacional após o levante militar de 3 de julho de 2013.

O respaldo se traduziu no retorno do Egito ao seio da União Africana, assim como na realização da conferência internacional de doadores para Gaza, em outubro deste ano.

Além disso, ficou marcada a recepção oferecida pelo presidente americano Barack Onama em setembro, e a viagem de Al Sisi a Paris e Roma em novembro, onde se reuniu com o presidente François Hollande, com o primeiro-ministro Matteo Renzi e com o papa Francisco.

Durante sua campanha eleitoral rumo à presidência, Al Sisi prometeu que em seu mandato não teria nada relacionado à Irmandade Muçulmana, uma promessa que as autoridades se empenharam para cumprir.

Desde então, centenas de dirigentes, integrantes e simpatizantes deste grupo, vencedor em 2011 das únicas eleições parlamentares democráticas realizadas no país, foram condenados à morte.

Segundo estimativas não oficiais, cerca de 50 mil opositores, em sua maioria da Irmandade Muçulmana, ilegalizada e declarada um grupo terrorista, foram presos desde o pronunciamento militar.

O único rival de Al Sisi nas eleições presidenciais de maio, o esquerdista Hamdin Sabahi, não duvidou em qualificar as políticas das novas autoridades de “mubarakistas”.

“Até o dia de hoje, a política que está sendo aplicada no país é a mesma que existia na época de Mubarak”, assegurou em maio Sabahi, que alcançou apenas 3% dos apoios, contra os arrasadores 96% conquistados por Al Sisi.

Sua crítica foi apoiada também por ONGs, muitas delas acossadas pelo novo regime, e que não duvidaram em denominar o presidente como “Mubarak 2.0”.

Esta afiada repressão correu paralelamente a uma escalonada militarização da política, fortalecida por vários decretos do governo, que correspondem diretamente a Al Sisi, que, sem parlamento, atua sem a supervisão de poder legislativo algum.

A morte de 31 soldados, em 24 de outubro, na Península do Sinai em dois ataques reivindicados pelo grupo Ansar Beit al Maqdis, que desde julho de 2013 redobrou seus ataques contra as forças de segurança, acelerou este processo.

Imediatamente depois foi decretado estado de emergência em dita região fronteiriça com Gaza e Israel e proibido o acesso da imprensa.

Em novembro, o Executivo deu sinal verde às forças armadas para apoiar a polícia na proteção das instalações vitais e a justiça militar recuperou protagonismo com outro decreto que lhe permite investigar qualquer ataque contra ditas instalações.

Em sua luta, Al Sisi não está só, pois conta com a simpatia de vários egípcios, exaustos por mais de três anos de desestabilização, assim como de meios de comunicação e partidos políticos.

Enquanto estes ativistas esperam melhores tempos para as reformas, o lema entoado pelos que defendem a situação atual é que “nenhuma voz pode ser ouvida acima do fragor da guerra contra o terrorismo”. EFE