Em meio à crise política, Líbia celebra eleições ao Órgão Constitucional

  • Por Agencia EFE
  • 20/02/2014 17h02

Esam Zuber.

Trípoli, 20 fev (EFE).- Em meio a importantes medidas de segurança e imersa em uma grave crise política, a Líbia realizou nesta quinta-feira eleições para o órgão que deverá redigir a nova constituição do país.

Cerca de 1 milhão de líbios, dos 4 milhões de habitantes com direito a voto, se inscreveram nas listas eleitorais para participar do processo, do qual sairão os 58 legisladores que ficarão encarregados de redigir a nova Carta Magna.

Ao redor dos colégios eleitorais, que abriram suas portas entre 08h e 19h locais, as autoridades desdobraram importantes medidas de segurança para evitar episódios de violência, especialmente na cidade de Benghazi, palco de contínuos assassinatos e atentados nos últimos meses.

Um total de 41 mil policiais e milicianos dependentes do Ministério do Interior, assim como 17 mil soldados, estavam desdobrados nas ruas do país para garantir a segurança do processo.

Apesar das medidas anunciadas, 48 dos 1.517 colégios postos à disposição dos eleitores não abriram suas portas por causa de problemas de segurança.

O vice-presidente da Comissão Eleitoral, Emad al Saih, precisou que estes centros estão localizados em Derna (nordeste), Obari (sudoeste) e Al Kufra (sudeste).

Na primeira destas localidades, quatro colégios eleitorais foram alvo de atentados na noite passada, ações que deixaram várias pessoas feridas, indicaram fontes de dita comissão à Agência Efe.

Apesar da falta de números oficiais sobre o nível de participação, a Efe pôde constatar que, em pelo menos dez colégios eleitorais do centro da capital, mais de 40% dos inscritos tinha exercido seu direito ao voto.

Para o engenheiro Abu Baker Sasi, um dos eleitores encontrados na frente de um dos colégios, “votar é um orgulho”. “Após 42 anos de proibição, essa é uma oportunidade para deixar um país melhor às gerações futuras”, declarou.

Em condição de anonimato, um empresário indicou à Efe que votar é “um dever nacional que todo líbio deve exercer para participar da redação da Constituição”.

O professor universitário Ali Youssef, por sua parte, expressou suas dúvidas sobre a transparência do processo e, inclusive, criticou o fato das eleições terem sido realizadas em um momento em que a segurança não está totalmente garantida em todo território.

O órgão constituinte deveria estar composto por 20 representantes de cada uma das três grandes regiões do país – Trípoli, no noroeste; Barka, no leste, e Fezán, no sudoeste.

No entanto, a minoria amazig, que, assim como as etnias Tabu e Tuaregue, tinha dois assentos reservados na nova comissão, renunciou a sua participação no processo por considerar que não está suficientemente representada.

Além disso, segundo indicou Al Saih, alguns colégios não abriram suas portas em Obari devido a um boicote protagonizado por membros da etnia Tabu.

A rejeição destas três etnias ao processo constituinte se remota ao mês de julho de 2013, quando, em um comunicado conjunto, os principais representantes de cada uma delas denunciaram que o sistema para escolher o Órgão Constituinte não garantia a representação das minorias.

Para estes grupos, os artigos da futura Lei Fundamental, que definirão o nome do Estado, o hino nacional, a bandeira, a identidade e a língua, devem recolher tanto as particularidades da maioria como das minorias.

As eleições ao Órgão Constituinte se realizam em meio a uma profunda crise política, iniciada no princípio deste mês, quando os deputados decidiram prolongar o mandato do Parlamento, que seria encerrado no dia 7 de fevereiro.

Essa decisão contou com a rejeição do principal partido político, Aliança Força Nacional, que acusou os deputados envolvidos de terem quebrado o consenso de todos os grupos políticos.

Desde o prolongamento das funções do Congresso Nacional geral, como se conhece o Parlamento, as autoridades denunciaram duas tentativas de sabotagem do processo político, uma no seio do Exército e outro por parte de duas milícias armadas dependentes do Ministério do Interior.

Diante desta situação, a opção de realizar eleições parlamentares e presidenciais antecipadas, enquanto o novo órgão constitutivo prepara uma minuta constitucional, foi ganhando apoio entre as distintas forças políticas parlamentares. EFE