Em mostra, Michael Soi aborda prostituição no Quênia e critica “moral dupla”

  • Por Agencia EFE
  • 10/09/2015 23h21

Alba Villén.

Nairóbi, 10 set (EFE).- As curvas da mulher africana ante bolsos endinheirados e prontos para comprar amores efêmeros nos clubes noturnos de Nairóbi. Esse pode ser o resumo de “Sex and the City”, a nova exposição do renomado artista queniano Michael Soi que faz uma crítica direta à moral dupla do país.

Na Aliança Francesa da capital queniana, onde está montada, a exposição transborda em cores e questiona com humor diante de olhares receosos dos visitantes: a prostituição incomoda os cidadãos que não estão envolvidos nela?

“A exposição causa desconforto porque a sociedade africana não é aberta a discutir o sexo. As pessoas são felizes fazendo e escondendo”, explicou o próprio artista, cuja obra foi exposta nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia.

O comércio sexual no Quênia é ilegal, mas basta uma breve caminhada para se deparar com movimentadas boates e perceber que conseguir uma boa noite a partir de pagamento é fácil.

A ideia da típica figura da prostituta parada em uma esquina pouco iluminada desapareceu. “Sex and The City” mostra mulheres que se vestem com couro apertado e purpurina, brilhantes e usam vertiginosos saltos. O comércio sexual, que não para de crescer, chegou às regiões mais exclusivas.

“Antes uma mulher que saía da zona rural e vinha à cidade não tinha alternativa que não fosse entrar na prostituição para bancar seus filhos, mas agora se trata simplesmente de fazer dinheiro. É pura arrogância”, criticou Soi.

Para ele, é seu dever representar a atual história de Nairóbi, como os livros fazem sobre os séculos passados.

“Não tentei fazer com que as pessoas se sentissem incomodadas, mas lembrar que isso está acontecendo e que negar não evita que ocorra”, argumentou.

Com cores atrevidas, poucos sorrisos e muitas expressões de surpresa, Soi representa a noite queniana durante os últimos 20 anos, nos quais não conseguiu escapar da ciumenta e escandalizada crítica social.

“Fico feliz quando criticam meu trabalho. Significa que a mensagem ficou nas pessoas”, afirmou.

Soi também critica o turismo sexual no litoral do país, onde homens brancos de idade avançada e com a barriga proeminente, às vezes com bengala, passeiam pelas praias paradisíacas de Diani ou Malindi acompanhados por uma ou até duas mulheres negras.

“Michael tem o poder de representar com seu pincel o que está em nossas mentes, e com isso ajuda a mudar a sociedade”, ressaltou Victoria Maina, uma das visitantes da mostra, sem conseguir conter o riso em frente às cruas representações de “Sex and the City”. EFE

av/cdr/id