Emaranhado institucional deixa centenas de haitianos na incerteza no Brasil

  • Por Agencia EFE
  • 25/04/2014 10h37

Macarena Soto.

São Paulo, 25 abr (EFE).- O emaranhado institucional entre o governo brasileiro, o estado do Acre e a Prefeitura de São Paulo em torno da chegada em massa de haitianos à maior cidade do país deixou os imigrantes na incerteza sobre o futuro.

Perguntados pela Agência Efe, nenhum dos governos assume a responsabilidade da situação qualificada como “caótica” pelo padre Paolo Parise, da Pastoral do Imigrante em São Paulo, que há duas semanas acolhe centenas de haitianos que se refugiam em um albergue improvisado em uma igreja.

O novo cenário se formou depois que no dia 10 deste mês o governo do estado do Acre fechou o albergue público da cidade de Brasiléia (fronteira com o Peru e a Bolívia). Com isso, segundo a Prefeitura de São Paulo, cerca de 800 haitianos foram transferidos de forma “indigna” a cidade em uma viagem de 30 horas em ônibus.

O choque institucional ficou claro com um comunicado do governo municipal de São Paulo, que se disse “totalmente surpreendido”, e julgou “irresponsável” a ação do estado do Acre “sem pactuar previamente” com a administração municipal paulistana.

“A decisão do Acre de enviar os imigrantes a São Paulo foi unilateral e nos surpreendeu totalmente”, comentou à Efe uma fonte da prefeitura.

O feriado da Semana Santa foi o argumento que a fonte usou para justificar o motivo de um suposto atraso na preparação de um plano de contingência imediato para receber os imigrantes.

A prioridade para o governo da cidade é agora, segundo a fonte consultada, “oferecer cama e comida” aos que se amontoam no refúgio improvisado instalado na Pastoral e realizar uma reunião com as secretarias envolvidas.

A prefeitura explicou à Efe que enviou ontem uma equipe médica ao local da Pastoral e está buscando acelerar o processo de obtenção de permissões de trabalho para os imigrantes que chegaram sem autorização.

O Executivo do Acre alega que o fechamento do albergue de imigrantes se deve à cheia do Rio Madeira, que isolou várias cidades, mas esclareceu que também foi aberto outro “provisório” na capital, em Rio Branco, com espaço para cerca de 1.500 pessoas. O secretário de Direitos Humanos, Nilson Mourão, sustentou que a falta de organização para receber os haitianos na Pastoral paulista responde as deficiências das companhias de ônibus que os transporta.

Além disso, Mourão disse à Efe que “para Brasiléia – cidade com 20 mil habitantes – os 2.500 imigrantes representam quase 20% da população” o que, em sua opinião, gera uma situação “extremamente complexa”.

“Eles estão fazendo a viagem que sempre quiseram, a rota que fazem há três anos e meio rumo às grandes cidades, onde os esperam empregos e parentes”, disse.

O Ministério do Trabalho, que coordena o Conselho Nacional de Imigração, foi procurado pela Efe em várias ocasiões, mas não forneceu informações ou emitiu qualquer comunicado oficial sobre a situação.

Por outro lado, os haitianos, que ao entrar no país recebem documentação legalizada e, por isso, não podem ser deportados, insistem em que seu único desejo é obter permissão de trabalho para dois objetivos imediatos: recuperar os quase US$5 mil perdidos no trajeto e mandar dinheiro para as famílias no Haiti.

Desde o devastador terremoto de 2010, o Brasil, que lidera desde 2004 a força de estabilização da ONU no Haiti (Minustah), é um dos destinos mais comuns da diáspora haitiana, que passa pela República Dominicana, Panamá, Peru e Equador antes de entrar no Acre.

“Em cada fronteira pagávamos à polícia. Quem não tinha nada era deportado imediatamente”, contou a Efe um jovem imigrante vindo de Porto Príncipe, que lembrou que o pior trecho é o peruano onde teve o tênis e seis escovas de dente que comprou no Haiti roubados. EFE

msh/cdr