Escândalos atrapalham recuperação econômica de Portugal

  • Por Agencia EFE
  • 12/12/2014 20h49

Óscar Tomasi.

Lisboa, 12 dez (EFE).- A prisão do ex-primeiro-ministro José Sócrates e a queda do Grupo Espírito Santo, como um castelo de cartas, sacudiram Portugal e mancharam suas conquistas em matéria econômica durante o ano de 2014.

Apesar de o país ter crescido neste exercício cerca de 1% após três anos consecutivos em recessão e de que o desemprego tenha caído em quase dois pontos, para em torno de 13%, os escândalos protagonizados por dois antigos pesos pesados – Sócrates e Ricardo Salgado, presidente do Espírito Santo – deixaram em choque o país inteiro.

O ano começou bem, com um alívio notável da pressão dos mercados que permitiu a Portugal contradizer os mais pessimistas e sair com sucesso de seu resgate financeiro em meados de maio para dizer assim adeus à troika.

No entanto, logo após os “homens de negro” – como são conhecidos informalmente os técnicos da UE e do Fundo Monetário Internacional (FMI) – deixar Lisboa, surgiu o primeiro indício público que algo acontecia no seio do Grupo Espírito Santo, um enorme e complexo conglomerado empresarial propriedade de uma das famílias mais ricas e influentes do país.

Uma auditoria revelou irregularidades em uma de seus principais sociedades e todo o Grupo cambaleou. Sua “joia da coroa”, o Banco Espírito Santo (BES), acabou sofrendo intervenção no mês de agosto pelo órgão supervisor, decisão que na prática representou a liquidação da qual então era a principal entidade financeira privada do país.

As acusações recaem majoritariamente sobre uma pessoa concretamente: Ricardo Salgado, presidente do BES durante 22 anos seguidos e a face visível do empório familiar, apelidado como “DDT”, as siglas para “Dono Disto Tudo”, em referência a seu imenso poder.

Além de ser apontado como responsável desta queda – cujas consequências na economia portuguesa ainda estão por ser vistas -, Salgado foi detido em julho por sua suposta relação com o maior caso de fraude fiscal e lavagem de capitais detectado no país.

De fato, o banqueiro está desde então em liberdade sob fiança – pagou três milhões de euros para não ir para a prisão – acusado por vários delitos e sem poder sair do país nem manter contatos com pessoas vinculadas ao caso.

A queda do império dos Espírito Santo ocupou a partir desse momento as capas dos jornais portugueses dia sim, dia não, um escândalo de proporções gigantescas com conexões com lugares como Suíça, Luxemburgo, Venezuela, Dubai e Miami, e que motivou inclusive a abertura de uma comissão de investigação no Parlamento.

No entanto, o momento de maior comoção social em Portugal aconteceu já neste final de 2014 com a detenção de José Sócrates logo após aterrissar em Lisboa procedente de Paris, em 21 de novembro.

Após três dias de interrogatórios, o ex-chefe de Governo entre 2005 e 2011 foi preso provisoriamente por ordem do juiz Carlos Alexandre, transformado em uma estrela emergente da mídia em Portugal por instruir as causas mais importantes dos últimos anos.

O antigo secretário-geral dos socialistas é acusado pelos delitos de fraude fiscal, lavagem de capitais e corrupção, acusações que não reconhece e que tachou de “absurdas, injustas e infundadas” através de uma carta.

A decisão do magistrado de impor a Sócrates a pena mais grave entre todas as possíveis foi criticada por diferentes juristas, que lamentam a falta de detalhes sobre os fatos em que se baseia a acusação.

Vazamentos para a imprensa apontam que a investigação atribui ao ex-primeiro-ministro uma fortuna próxima de 20 milhões de euros que, supostamente, mantinha oculta através de um testa-de-ferro.

Seu encarceramento aconteceu em um contexto político de intenso movimento, com as eleições gerais se aproximando – estão previstas para outubro de 2015.

Os socialistas, principal grupo da oposição, lideram as pesquisas e acabam de designar como novo líder e candidato o atual prefeito de Lisboa, António Costa, que pertence à mesma “família” de Sócrates.

Enquanto isso, a coalizão conservadora no Governo liderada pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, confia seu futuro à recuperação econômica – se estima uma alta do PIB para o próximo ano de 1,5% -, que vincula diretamente o severo programa de ajustes aplicado durante esta legislatura. EFE