Faltam neuropediatras para atender bebês com microcefalia no Brasil

  • Por Jovem Pan
  • 07/03/2016 14h25
Ana Beatriz

A falta de estrutura para atender bebês que nascem com microcefalia no país esbarra em um problema crônico e burocrático: a falta de neurologistas pediátricos: médicos especialistas em acompanhar o desenvolvimento do cérebro das crianças.

Há algo em torno de 1.500 profissionais no Brasil. A grande maioria, porém, está concentrada nas regiões sul e sudeste, onde não há surtos da anomalia cerebral associada ao zika vírus, como no nordeste.

Uma das médicas pioneiras em identificar o aumento dos casos em Recife, dra. Ana Van Der Linden, admite que falta gente para atender uma demanda é gigantesca. A neurologista infantil calcula que o número de especialistas não passa de 20 em todo o Pernambuco, estado campeão de registros de microcefalia. Hoje são mais de 1600 em investigação pelo Ministério da Sáude.

O próprio IMIP, o instituto de medicina referência na região que recebeu há alguns dias a visita dadiretora-geral da OMS, Margaret Chan, é um retrato atual do cenário por lá. São, ao todo, três profissionais para atender mais de 230 crianças, sendo a própria drª Ana um deles.

“Há uma deficiência no número de neuropediatras em Recife. Pedir uma consulta é extremamente difícil. A espera talvez seja mais de três meses”, conta Van Der Linden.

Dois gargalos

O retrato de hoje tem dois gargalos. O principal resvala em uma decisão de 2002 da Comissão Mista de Especialidades, orgão independente do governo formado por conselhos e associações médicas. Desde então, neurologia pediátrica deixou de ser uma especialidade para se tornar uma área de atuação.

Na prática, isso desistimula a formação de novos profissionais, esclarece a coordenadora do Departamento Científico da Associação Brasileira de Neurologia, Marilisa Mantovani Guerreiro. “O número reduziu muito porque as pessoas têm que fazer ou pediatria ou nerologia antes de virem para a neurologia infantil. Com isso muitos desses possíveis candidatos acabam tendo outra direção na vida”.

Ao analisar o reflexo desta mudança é que chegamos ao segundo gargalo. Com a redução do interesse, as faculdades também diminuiram as vagas de residência na área. Especialmente em campos mais isolados, como os do nordeste. Norte e centro-oeste sequer possuem oferta desse tipo de médico.

Pressão

A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil vai usar o surto de microcefalia em bebês para pressionar novamente a Comissão Mista a reconsiderar a decisão de 2002, apoiada à época pelos pediatras. O presidente da entidade, Rubens Wajmnsztejn (Vainstáen) está esperançoso.

Ela frisa que, apesar de neurologistas e pediatras formados estarem aptos a tratar dessa anomalia cerebral associada ao zika vírus, o tratamento por um especialista é muito mais criterioso.

“Eles até estudam isso, mas passa a não ser a questão mais importante. Essa vivência com a criança desde o momento do nascimento, berçário, e todo o processo de desenvolvimento, é bastante específico dentro da área da neurologia infantil. Vai determinar a evolução nos casos de microcefalia”, afirma.

Em nota, a Comissão Mista de Especialidades informou à Jovem Pan que não recebeu até o momento um pedido formal para reavaliar a questão.

Procurados, os Ministérios da Saúde e da Educação não quiseram comentar sobre a falta de profissionais para atender os casos crescentes de microcefalia no Brasil.

Reportagem de Carolina Ercolin