Francisco viaja a Cuba para apoiar uma Igreja que quer ampliar seu espaço
Sara Gómez Armas.
Havana, 17 set (EFE).- O papa Francisco será o terceiro pontífice a visitar Cuba, país onde a Igreja Católica assumiu um papel de destaque como interlocutora com o governo de Raúl Castro, mas cujo desafio é ganhar mais espaço e reconhecimento institucional em um país que se mantém comunista.
Cuba será um dos poucos países do mundo a receber a visita consecutiva de três papas: João Paulo II, em janeiro de 1998; Bento XVI, em março de 2012; e agora espera a presença, entre 19 e 22 de setembro, de Francisco, o primeiro pontífice latino-americano.
Em seus quatro dias em Cuba, ele percorrerá Havana, onde celebrará uma grande missa na Praça da Revolução e se reunirá com Raúl Castro; Holguín, província que pela primeira vez receberá um papa; e Santiago de Cuba, onde irá ao Santuário da Virgem da Caridad del Cobre, padroeira do país.
De Santiago de Cuba, o papa partirá para Washington, segunda parte da viagem por Cuba e Estados Unidos, os dois países que restauraram seus laços após 54 anos de inimizade com a mediação pessoal de Francisco, o que confere a esta visita pastoral uma dimensão política e diplomática.
Com o lema “Missionário da Misericórdia”, Francisco viaja para uma Cuba muito diferente da que João Paulo II encontrou, cuja visita representou um ponto histórico na aproximação entre a Igreja e o Estado, após décadas de desencontros e tensões com a revolução castrista.
A visita de Karol Wojtyla – que contou com a presença do então bispo Jorge Bergoglio – marcou “o antes e o depois, deu visibilidade pública e imprimiu dinamismo novo” à Igreja Católica cubana, explicou à Agência Efe José Félix Pérez, porta-voz da Conferência de Bispos Católicos de Cuba (COCC).
A partir de então, teve início uma aproximação aprofundada por um reformista Raúl Castro, no poder desde 2008 e que realizou um marco em 2010, quando implementou um importante processo de libertação de presos políticos, após um inédito diálogo com a hierarquia católica do país.
“Agora, temos uma melhor comunicação e nos tornarmos mais influentes. Há um espírito muito positivo e de cordialidade”, destacou o padre Pérez.
Uma avaliação com a qual concorda o governante (e único) Partido Comunista de Cuba (PCC), para o qual as relações com a Igreja estão em um “bom nível”, de acordo com Caridad Diego, a chefe do Escritório de Assuntos Religiosos dessa organização em recente entrevista à Efe.
No meio dessa distensão, o Estado realizou a devolução de templos, imóveis e terrenos que foram propriedade da Igreja Católica e que expropriou durante a revolução, e este ano autorizou, pela primeira vez desde 1959, a construção de duas novas igrejas, uma em Havana e outra na província de Pinar del Río.
Além disso, agora é permitido que religiosas deem assistência a doentes em hospitais e a pessoas da terceira idade, em um país que enfrenta o desafio de um progressivo envelhecimento populacional.
Porém, a Igreja reivindica mais espaços públicos de contato com o povo em áreas como a educação e maior presença nos meios de comunicação, que no país são todos de domínio do governo.
Na área educacional, a Igreja desenvolve desde o final dos anos 90 cursos de formação complementar e, desde 2012, 500 pequenos empresários de Havana se beneficiaram do programa “CubaEmprende”, que capacita os chamados “cuentapropistas”, os trabalhadores autônomos.
A ampliação do setor privado em Cuba é uma das medidas impulsionadas por Raúl Castro em suas reformas para “atualizar” o modelo socialista, um plano que a Igreja Católica avalia positivamente, embora em algumas ocasiões tenha criticado o ritmo lento destas mudanças.
Estima-se que 60% da população de Cuba – o país tem 11,1 milhões de habitantes – seja católica, levando em conta o número de batizados, embora a porcentagem de cubanos que frequente as missas de domingo chegue a apenas 2%.
No país há 305 paróquias, 357 padres e 776 religiosos, 585 mulheres e 191 homens, pertencentes a 96 comunidades cristãs.
Os dados são modestos se comparados à presença da Igreja Católica antes de 1959, já que, com o triunfo de revolução, 131 sacerdotes foram expulsos de Cuba e quase 500 foram embora por conta própria.
Contudo, a religiosidade local é marcada pelo sincretismo, com cultos como a Santeria, batente popular entre os moradores sem que seja visto como incompatível com o catolicismo.
“Em Cuba é muito natural que uma pessoa tenha se batizado na Igreja Católica, seja iniciada na Santeria, faça parte do Palo, pertença ao Abakuá e ainda seja maçom”, comentou Caridad Diego.
Além da religião católica, Cuba possui 55 igrejas evangélicas reconhecidas e registradas, segundo dados do Escritório de Assuntos Religiosos do PCC. EFE
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