Golpe de Estado consolida poder dos militares na Tailândia

  • Por Agencia EFE
  • 15/12/2014 19h29

Gaspar Ruiz-Canela.

Bangcoc, 15 dez (EFE).- O golpe de Estado na Tailândia, em maio, consolidou o poder dos militares, que iniciaram um processo de reformas ao mesmo tempo em que reprimem rigorosamente qualquer indício de dissidência.

O chefe da junta militar e primeiro-ministro do país, Prayuth Chan-ocha, prometeu acabar com a corrupção do sistema político e realizar novas eleições, o que poderia ocorrer em 2015 ou 2016, mas isso não evitou repressões típicas de uma ditadura.

Com a lei marcial vigente em todo o país, as manifestações contra a junta militar estão proibidas, inclusive protestos simbólicos como comer sanduíches, exibir o livro “1984” ou levantar três dedos como no filme “Jogos Vorazes”.

Sob o eufemismo “ajuste de atitude”, os militares prenderam centenas de dissidentes, como a ex-primeira-ministra Yingluck Shinawatra, mas a maioria é libertada poucos dias depois, ao assinarem um documento em que se comprometem a não participar de ações políticas.

No entanto, organizações como Anistia Internacional e Human Rights Watch (HRW) denunciaram supostas torturas e ameaças dos militares contra dissidentes e estudantes, alguns processados em tribunais militares, assim como a proibição de conferências e simpósios na universidade.

A HRW afirmou que a junta, oficialmente chamada Conselho Nacional para a Paz e a Ordem (NCPO), insiste que está comprometida com o plano de reformas.

“Mas até o momento, a agenda da NCPO serviu sobretudo para aumentar o controle e reprimir direitos”, disse à Agência Efe o diretor da ONG para a Ásia, Brad Adams.

A HRW denuncia que “em vez de tomar o caminho em direção à democracia, a junta está apertando o cerco sobre a liberdade de expressão e a opinião pública. Manifestar uma opinião política pode levar uma pessoa a um tribunal militar e à prisão”.

Os militares tomaram o poder no dia 22 de maio em um levante após mais de seis meses de protestos contra o governo liderados por uma elite conservadora e monárquica e que chegaram a boicotar as eleições.

Prayuth, então chefe do Exército, citou entre os motivos para o golpe a onda de violência, após 28 mortos e cerca de 800 feridos, e a falta de diálogo entre o governo e seus opositores.

Com uma imagem de líder paternalista, o atual primeiro-ministro não eleito pede aos dissidentes para que apresentem suas propostas ao Conselho de Reforma Nacional, ao qual já se dirigiram os líderes dos protestos antigovernamentais e do Partido Democrata, ambos próximos à hierarquia militar.

“Pode ser que eu não seja 100% democrático. Mas quero perguntá-los se 100% de democracia fez algo pelo país. Respondam por mim. Estou pronto para escutar qualquer problema. Deveriam me contar. Mas não perguntem por democracia ou eleições agora. Agora não posso conceder isso”, afirmou recentemente o chefe da junta, segundo a imprensa local.

As autoridades fizeram campanhas de propaganda sob o lema de “devolver a felicidade ao povo” com concertos, a transmissão gratuita da Copa do Mundo de futebol e a expulsão dos ambulantes ilegais das praias.

O general Prayuth elaborou uma lista de 12 princípios com valores patrióticos que os alunos têm que repetir diariamente nas escolas e que também serviram de argumento para um filme financiado pelo governo militar.

“Para restaurar o amor, quanto tempo custará? Por favor, pode esperar? Avançaremos além das disputas”, diz uma canção escrita pelo primeiro-ministro, que todas as sextas-feiras apresenta um programa na televisão chamado “Devolver a felicidade ao povo”.

A Tailândia viveu 12 golpes de Estado e 19 tentativas desde o fim da monarquia absoluta em 1932. O levante militar anterior ocorreu em 2006, contra o ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, que vive no exílio para evitar uma condenação de dois anos por corrupção.

Irmão e mentor político de Yingluck, Thaksin conta com grande apoio entre as classes baixas e a maioria do eleitorado nas zonas rurais do norte e do nordeste.

Desde a defenestração, a Tailândia viveu diversos períodos de protestos e instabilidade política por parte de críticos e simpatizantes que afetaram negativamente a imagem e causaram a desaceleração econômica do país.

Os militares, que se apresentam como os últimos fiadores da reverenciada monarquia e a união nacional, voltaram a demonstrar em maio que seu poder ameaça qualquer governo civil. O Exército prometeu, no entanto, que as reformas resolverão os problemas do país e que golpes de Estado não serão mais necessários. EFE