Greve “eterna” leva desespero às minas de platina na África do Sul

  • Por Agencia EFE
  • 23/05/2014 16h14

Marcel Gascón.

Marikana (África do Sul), 23 mai (EFE).- Mais de quatro meses de greve por melhoras salariais deixaram à beira do desespero o sempre vulnerável cinturão da platina sul-africano, onde as empresas de mineração perdem a cada dia milhões de dólares e trabalhadores e familiares lutam para sobreviver sem seus salários.

Uma frágil tranquilidade substitui o habitual vai e vem de mineiros na hora da troca de turno nos arredores da mina da companhia Lonmin em Marikana, uma das três explorações afetadas pela greve, e onde 34 trabalhadores foram mortos a tiros pela polícia durante um protesto em agosto de 2012.

Cinco seguranças armados fazem guarda com cara de poucos amigos frente ao alambrado que protege as instalações do gigante da platina frente os grevistas, cerca de 70 mil militantes do Sindicato da Associação de Mineros e da Construção (AMCU, em sua sigla em inglês).

Os grevistas pararam de entrar nas minas em janeiro, reivindicando um salário mínimo de 12.500 randes (R$ 2.700).

A quantidade dobra o salário básico atual e é considerada inviável pela patronal, que ofereceu em abril um aumento de 10% para chegar ao salário que exige AMCU em 2017, proposta que não foi aceita pelo sindicato.

“Não podemos viver com o que ganhamos, são salários ridículos para o risco que corremos aí embaixo e não voltaremos por uma esmola”, diz à Agência Efe Zingisa Mzendana, mineiro e representante do AMCU – sindicato majoritário do setor – na exploração da Lonmin, que ganha 350 euros líquidos ao mês.

“Todos estamos sofrendo após quatro meses sem ganhar, mas não podemos jogar a toalha agora”, reconhece Mzendana, que, como muitos outros muitos mineiros, vê as horas passarem sentado nas ruas da cidade de Wonderkop, no coração do cinturão da platina e perto de Marikana.

Na mesma rua, o paquistanês Mohammed Amjedi, que confessa ter perdido 80% das vendas, se queixa do aumento da criminalidade em uma comunidade que vive quase exclusivamente da mineração.

“Muita gente vem pedir comida e tento ajudá-los, mas, desde que o ano começou, ainda não enviei dinheiro a minha família no Paquistão”, conta à Efe Amjedi, que se mostra esperançoso de que a intervenção do Tribunal Laboral, mediador na disputa, facilite as conversas entre sindicatos e patronal.

As consequências da greve chegam também à província sul-africana do Cabo Oriental e a países como Lesoto e Moçambique, lugares de procedência de muitos dos mineiros de Marikana, nos quais comunidades inteiras viram secar a fonte de renda desde que os trabalhadores da platina deixaram de receber, em fevereiro.

A tensão disparou na semana passada em Marikana – a cerca de 130 quilômetros de Johanesburgo – com a revelação de que a Lonmin havia contatado diretamente os trabalhadores através de mensagens de texto para pedir-lhes que voltassem a seus postos.

Segundo a empresa – afetada pela greve junto às empresas Amplats e Impala – que denunciou casos de intimidação aos que não querem apoiar a greve, 60% dos empregados desejava voltar ao trabalho.

AMCU acusou a Lonmin de agir de forma escusa e de mentir, enquanto respondeu com várias demonstrações de força na zona, onde a maioria dos mineiros vive em favelas insalubres.

Cinco mineiros do sindicato rival União Nacional de Mineros (NUM, na sigla em inglês), que não apoia a greve, foram assassinados este mês quando se dirigiam a seus postos de trabalho, o que obrigou a todos seus filiados a ficar em casa ao não poder garantir as empresas e a polícia sua segurança.

As mortes violentas são uma constante em Marikana e seus arredores desde que mais de 40 pessoas – incluindo os 34 mineiros mortos pelas forças de segurança – morressem na conturbada temporada de greves de 2012.

Vários sindicalistas do AMCU e do NUM – que livraram uma sangrenta guerra pelo controle do setor- e testemunhas da comissão oficial que investiga o massacre de mineiros pela polícia em 2012 foram crivados a balas nos últimos meses, sem que suas mortes tenham chegado às capas da imprensa sul-africana.

Além de todos os mineiros contatados pela Efe declarassem estar a favor de manter a greve, alguns parentes dos trabalhadores admitiram temer pela vida de seus maridos, pais e filhos se retornam às explorações antes do final da greve.

A poucos metros da mercearia do paquistanês Amjedi, Evelyn Mmekwa abriu no pátio de sua casa um refeitório que oferece duas porções ao dia a mais de 300 grevistas e seus familiares.

“Decidi abri-lo há um mês, ao ver uma mulher desmaiar na rua de fome”, relata à Efe Mmekwa, esposa de um padre da Igreja de Cristo, que usa para comprar os alimentos suas economias e a pensão de seu marido, e ainda recebe doações das cidades próximas.

Com Mmekwa, servem voluntários como Mary Moekwa, operadora de locomotivas na mina e também em greve.

Apesar das duras condições em que trabalha no subsolo, Mary espera que os líderes sindicais não aceitem um salário mínimo menor que 10 mil randes (cerca de R$ 2.160).

“Todos queremos voltar às minas” – defende a voluntária – “mas não por um dinheiro com o qual não podemos nem pagar os estudos dos nossos filhos nem comer sem nos endividar”. EFE

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