Grupo católico pedirá que papa Francisco libere o aborto em casos de zika

  • Por Jovem Pan
  • 12/02/2016 11h17
Papa Francisco posa com sombrero a caminho do México

Um grupo católico aproveita a visita do papa Francisco à América Latina, iniciada nesta sexta-feira, para pedir que o pontífice autorize integrantes da Igreja a “seguir a sua própria consciência” e usar métodos contraceptivos, ou que permita às mulheres realizar o aborto por causa do zika vírus.

O apelo do Catholics for Choice, publicado no jornal The New York Times e replicado ao redor do mundo, convoca o papa a “ser um bom samaritano”. A carta ganhou força, já que nesta semana a Organização Mundial de Saúde recomendou que as mulheres em áreas com o vírus se protegessem, especialmente durante a gravidez, se cobrindo para evitar os mosquitos e praticando sexo seguro com os seus parceiros.

O tema, porém, é considerado uma pedra fundamental pela área conservadora da cúpula eclesiástica. A presidente do Catolicas pelo Direito de Decidir, organização parceira do “Catholics for Choice” no Brasil, Maria Jose Rosado, ressalta que a referencia ao “bom samaritano” no apelo convoca o papa a uma “atitude cristã”.

Ela entende que permitir o aborto nesses casos “se trata de uma atitude cristã, de acolhimento das mulheres, de compreensão para com o fato de que são as mulheres particularmente negras e pobres as que mais sofrem com as consequências dessa epidemia no caso de elas engravidarem e terem uma criança com microcefalia”.

O texto pede que o papa Francisco deixe claro para a hierarquia da igreja que as decisões das mulheres, incluindo a de interromper uma gravidez, devem ser respeitadas, não condenadas. Pragmaticamente, Maria José reconhece que essa é uma pauta difícil. No entanto, o grupo avalia que reascender o debate sobre o tema é igualmente importante.

“Tudo aquilo que diz direito aos direitos de afirmação de autonomia das mulheres não tem sido nada aberto, mas esse papa é um papa que surpreende”, diz a presidente da ONG, torcendo para que Francisco “seja sensível a essa situação”. Ela espera “que a igreja, ao menos numa atitude de compaixão, se abrisse”.

Francisco começa sua viagem pelo México, um dos países mais católicos do mundo, já registrou 65 casos de zika. As autoridades nacionais estão, inclusive, se movimentando para proteger o papa dos mosquitos com pulverização de larvicidas em áreas por onde o pontífice visitará.

Valores

A Igreja Católica ensina que a vida começa no momento da concepção, e que o aborto é assassinato.

Além disso, Igreja proíbe métodos contraceptivos artificiais como preservativos, alegando que eles bloqueiam a possível transmissão de vida.

Em 2010, o ex-papa Bento XVI afirmou num livro que o uso de preservativos para conter a Aids poderia ser justificado em certos casos excepcionais. O Vaticano até agora não tratou do tema em relação ao zika vírus.

Em 2015, o Papa Francisco disse em uma viagem as Filipinas que a proibição de métodos contraceptivos não significa reproduzir-se “como coelhos”.

O alerta da OMS diz: “Mulheres que desejam terminar a gravidez por causa do medo da microcefalia devem ter acesso a serviços de aborto seguros dentro da lei”.

Por Carolina Ercolin

Foto do texto: EFE/Percio Campos