“Guerra do lixo”: Filipinas questiona envio ilegal de resíduos do Canadá

  • Por Agencia EFE
  • 16/08/2015 10h59

Helen Cook.

Manila, 16 ago (EFE).- A chegada às Filipinas de cerca de 2,5 mil toneladas de resíduos enviados pelo Canadá nos dois últimos anos indignou grupos ambientalistas, que acusam o país de tratar o arquipélago asiático como um depósito de lixo.

“O Canadá tem que se responsabilizar por seu lixo, isto é algo que não podemos tolerar”, disse à Agência Efe a coordenadora do Departamento de Químicos da ONG filipina BAN Toxics, Anna Kapunan.

Segundo dados facilitados à imprensa pelo Departamento de Alfândegas filipino, em julho de 2013 chegaram ao porto de Manila 50 contêineres de 25 toneladas carregados de lixo, e quase dois anos depois, em maio, chegaram outras 48 toneladas ao porto da baía de Subic.

“Há outros cinco contêineres que também chegaram, mas desapareceram”, denunciou Kapunan.

Em teoria, nos contêineres só havia plástico para reciclagem importado por uma empresa nas Filipinas. Mas depois que ninguém reivindicou a mercadoria durante meses, as autoridades inspecionaram alguns dos contêineres, onde encontraram fraldas de adultos, jornais, utensílios de cozinha e recipientes com cloro.

O Convênio de Basileia de 1989, ratificado pelo Canadá, proíbe expressamente o envio de resíduos perigosos além de suas fronteiras, mas o governo canadense não agiu diante de repetidos pedidos para a retirada dos contêineres.

“Atualmente, não contamos com leis nacionais que possamos aplicar para forçar a companhia que transportou os materiais a levar os contêineres de volta ao Canadá”, afirmou em comunicado a embaixada canadense em Manila.

Além disso, o embaixador do Canadá nas Filipinas, Neil Reeder, garantiu à imprensa que os resíduos não são tóxicos.

No entanto, a BAN Toxics aponta para a possibilidade de os contêineres transportarem materiais extremamente perigosos, e pediu às autoridades filipinas uma investigação a fundo.

“O Canadá tem infraestruturas suficientemente modernas para se desfazer de resíduos regulares. Então por que enviaram esses contêineres às Filipinas?”, questionou a coordenadora da ONG.

“Achamos que é possível que haja outras coisas nesses contêineres, como resíduos nucleares, por exemplo, ou armas”, acrescentou.

Embora a metade dos contêineres estejam no porto de Manila há dois anos, o alerta social não soou até julho, quando foram transferidos e enterrados 26 dos contêineres em um dos lixões da província de Tarlac, a 100 quilômetros da capital.

Desde então e diante da indignação dos cidadãos e as pressões do Departamento de Alfândegas e do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais, as Filipinas anunciaram que apresentarão uma queixa diplomática formal ao Canadá.

“Quando recebermos os documentos necessários, apresentaremos uma queixa formal, embora já tenhamos enviado várias mensagens sobre o mesmo assunto à embaixada canadense”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores filipino, Charles José.

“É muito importante que não haja um precedente. Se o Canadá envia seus resíduos, o que vai impedir que outros países não façam o mesmo? É preciso pôr fim a isso”, ressaltou Anna Kapunan.

De fato, ela afirma que sua ONG recebeu informações do Departamento de Alfândegas de que foram descobertos mais contêineres com resíduos, desta vez enviados de Hong Kong.

“Não se trata só do prejuízo físico, mas também da dignidade e da honra das Filipinas. Não podemos permitir que nos tratem como se fôssemos uma lata de lixo”. EFE

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