Industrialização chinesa deixa sem pais uma a cada quatro crianças

  • Por Agencia EFE
  • 14/01/2014 06h05

Tamara Gil.

Pequim, 14 jan (EFE).- Chen Guishan tem 15 anos e não lembra como é seu pai. É uma das 61 milhões de crianças chinesas deixadas para trás ao emigrar para as cidades em busca de um trabalho melhor, que ficaram no campo, com seus avôs, tios ou outros parentes.

É um drama nacional que afeta uma a cada quatro crianças na China, segundo um relatório divulgado esta semana pelo Centro de Defesa dos Direitos do Menor e a Corporação Responsabilidade Social (CCR-CSR), apoiado pela embaixada da Suécia em Pequim.

“A migração interna da China, de mais de 260 milhões de pessoas, é uma história motivadora, mas também de resistência e uma realidade difícil”, explicou a diretora-executiva do CCR-CSR, Sanna Johnson, durante sua apresentação em Pequim.

Os testemunhos recolhidos pelo documento dão voz a essas dificuldades, com histórias de crianças que não só não reconhecem seus pais, mas chegam a nem sentir saudades por se acostumarem a vê-los uma ou, com sorte, duas vezes ao ano. Ou a não fazê-lo nunca.

“Desde que me lembro, meu pai trabalhou longe de casa. Tenho contato com ele por telefone. Ele vem em casa uma ou duas vezes ao ano, mas, às vezes, nenhuma”, explicou Chen, um adolescente de 15 anos que vive na cidade de Chongqing, junto com a avó e seu irmão menor, enquanto o pai trabalha na província vizinha de Guizhou, no sul da China.

Suas conversas por telefone não vão além de perguntas sobre o colégio. “Perguntei para meu pai o que fazia, mas só me pede que me concentre em meus estudos. Não me importa o que me diga e não quero saber em que trabalha”, opinou Chen, cujos pais se divorciaram quando era muito pequeno. Pouco depois, sua mãe voltou de Guizhou para sua cidade natal, após sofrer um grave acidente de carro que a deixou paralítica.

“Desde que era pequeno, vivo com minha avó. Meu avô morreu há anos, e ela é a única que se preocupa comigo”. O sentimento de Chen é parecido com o de Xiaohang, de 12 anos, cuja mãe morreu de câncer quando tinha oito anos, ou da jovem Xiaoli, que desde os oito meses convive com sua avó, o que a fez duvidar que seus pais “sejam de verdade, os biológicos”.

A tragédia que se percebe nos testemunhos das crianças não é diferente da percebida nos pais, pessoas que se viram forçadas a emigrar para conseguir um futuro melhor para suas famílias, embora estejam separados.

“A escolarização das crianças é o grande problema que os emigrantes enfrentam para poder levar seus filhos com eles”, explicou Liu Qiang, de 38 anos, que teve de se separar de suas duas filhas, de nove e seis anos, e seu filho, de quatro, para conseguir ganhar mais. Chegou aos 400 euros por mês, trabalhando na construção, que se somam os 200 euros por mês que ganha sua mulher.

O sistema de registro na China, o chamado “hukou”, e que o governo chinês anunciou recentemente que modificará, impede que crianças estudem fora de sua cidade natal, como também limita o acesso aos serviços de saúde. Por isso muitos pais preferem deixá-los “para trás”.

“Quando me perguntam sobre meus filhos, choro, sinto uma dor profunda”, desabafou Hu Xuexiu, representante dos 1.500 emigrantes de nove fábricas que foram entrevistados para o relatório ao qual a Agência Efe teve acesso.

Ainda com as dificuldades, 34 milhões dos 262 milhões de trabalhadores emigrantes na China decidiram levar seus filhos com eles, apesar das longas jornadas de trabalho que quase não deixam vê-los, e que a metade sinta que não exerce o papel de bons “bons pais”.

É aí que está o foco organizações como o CCR -CSR, na responsabilidade que as próprias empresas têm e na ajuda que podem oferecer aos emigrantes para combater esta situação.

“Podem dar facilidades a esses pais, horários flexíveis, criar creches no próprio trabalho”, exemplificou a diretora-executiva.

Definitivamente, criar as condições para que China alcance as metas de urbanização, mas não a todo custo. EFE