Jornalista Goulart de Andrade morre em São Paulo aos 83 anos

  • Por Jovem Pan
  • 23/08/2016 10h10
Com 61 anos de profissão

Morreu nesta terça-feira (23), no Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, o jornalista Luis Felipe Goulart de Andrade, aos 83 anos. Ele tinha problemas no sistema cardiorrespiratório, que se agravaram nos últimos dias. Ele deixa a mulher, Margareth Bianchini, com quem viveu nos últimos 13 anos e não teve filhos. Goulart deixa três filhos, três netos e uma bisneta.

A família ainda não tem informações de onde será o velório, mas Goulart tinha o desejo de ser cremado.

Luiz Felipe Goulart de Andrade, nascido no Rio de Janeiro em 03 de abril de 1933, foi jornalista, publicitário, radialista, ator, diretor, diretor de Cinema e TV e empresário do setor de comunicação.

Atualmente, era contratado da TV Gazeta como apresentador do programa “Vem Comigo”, onde os alunos da Fundação Cásper Líbero tinham a missão de repaginar temas de reportagens de seu acervo para a linguagem atual. Uma aula de Jornalismo pautada pela História do mais antigo repórter da TV brasileira. O programa é exibido aos domingos, às 23h30.

61 anos de exercício do jornalismo com liberdade

A história do jornalismo brasileiro tem um volume inteiro só contado pelo repórter Goulart de Andrade. Uma carreira vivida intensamente por meio da reportagem, que é a melhor maneira de ser jornalista, vem sendo desenhada com estilo e características que somam adjetivos como “marcante” e “impar”. Goulart tinha 83 anos de vida e 61 de profissão. Mais de meio século de atividade intensa e inquieta, que transformou a linguagem da TV com sua reportagem narrativa. No acervo pessoal, que hoje está na Sala Cinemateca, há mais de 12.000 horas de gravações do “Comando da madrugada”, marca que foi criada por ele na Rede Globo, no final da década de 1970 e que hoje é objeto de estudo dos alunos da Fundação Cásper Líbero.

Jânio Quadros, Chico Buarque de Holanda, Washington Olivetto, César Camargo Mariano, Mário Covas e uma lista interminável de pessoas que em suas áreas, fazem a História contemporânea do país, foram entrevistados por ele. Marcelo Tas, Fernando Meireles, Cacá Rosset e Vandi (Bem Brasil), passaram pelo comando de Goulart nos idos tempos da TV Gazeta. O estilo de narração gerou o “plano sequência”, implantado depois pelo Aqui Agora, exibido pelo SBT e também copiado pelos noticiários de “hard news” que andaram coalhando a TV brasileira.

Suas preferências pessoais sempre foram pautadas pelo hedonismo, o culto às coisas boas da vida. Enólogo exigente, gourmet dedicado e de afinado gosto para as artes e decoração, valorizava cada canto do complexo onde estruturou sua empresa, na Granja Viana, nos arredores de São Paulo.

Criatividade, renovação e muito conhecimento dão um peso de ouro aos intensos anos do repórter Goulart de Andrade, um ícone da TV Brasileira, tal como são Hebe Camargo, Jô Soares, Chacrinha ou Silvio Santos.

Iniciou sua vida profissional em 1955, na TV Rio, com o programa “PRETO E BRANCO”. É o repórter mais antigo do Brasil que continuava na ativa fazendo da profissão um verdadeiro exercício de liberdade. Goulart contava que sua carteira profissional foi assinada apenas uma vez, e por uma circunstância bem específica.

Sua história se confunde com a História da televisão brasileira. No currículo invejável, exibe-se as seguintes passagens:

Sumaré 22 horas – TV Tupi, 1960/69

Campeonato das cidades – 1969 (Produtor)

TV Jornal do Comercio – Diretor Geral da TV

Poder Jovem – TV Tupi – 1964

Grandes Atrações Pirani – TV Tupi – 1960/62

Bibi Ferreira – TV Excelsior – 1963

Festival Universitário – Tupi 1969

Agro 70 – TV Tupi – 1960

Noite de Gala – TV Rio – 1957

Preto e Branco – TV Rio – 1957

Fantástico – Globo, 1973 a 1976

São Paulo Especial – TV Globo

Perdidos na Noite ( Com Fausto Silva) – TV Gazeta – 1982

23ª Hora – TV Gazeta – 1980 a 1982

Frente Única da Música Popular Brasileira – TV Record

Plantão da Madrugada – TV Bandeirantes – 1988

Eu sou o repórter – SBT – entre 1988 e 1989

Na imprensa escrita, trabalhou em jornais como Última Hora (de Samuel Wainer) e Aqui São Paulo.

Foi diretor de criação das agencias de publicidade MaCann Ericson e Esquire.

Em 61 anos de carreira, Goulart de Andrade recebeu alguns dos importantes prêmios do Brasil, como Roquete Pinto, Governador do Estado, Associação Paulista de Críticos de Arte e Troféu Imprensa.

Nos EUA, foi tema de uma reportagem especial na revista Weekly Edition, do jornal The Daily Post, de Nova York. Nesta época fez Beautifull Brazil.

Precursor da produção independente, produziu, dirigiu, financiou e apresentou alguns de seus programas.

Em março de 1978, estreou o programa Comando da Madrugada, na TV Globo.

Em 1997, Goulart de Andrade revoluciona o seu programa que, com o nome de novo Comando da Madrugada, se transforma na rede Manchete em moderna revista eletrônica com duas horas de duração.

Goulart de Andrade foi responsável pela produção, apresentação e direção do programa jornalístico Repórter Record, exibido pela Rede Record de televisão, de maio de 1998, até abril de 2000.

Logo depois voltou para TV GAZETA, com programa diário, de Segunda a sábado com o nome Comando da Madrugada reeditado.

Também, na TV GAZETA em 2001 ao domingos, produziu, dirigiu e apresentou um programa intitulado: Vem Comigo.

Fez teatro, cinema e novelas

TEATRO

1ª Peça Fernando Pessoa. 2ª Hair

Direção Silnuy Siqueira Direção Ademar Guerra

3ª Putz

Direção Osmar Rodrigues Cruz

CINEMA:

1ª A Marcha 2ª Próxima Vitima

Direção Oswaldo Sampaio Direção João Batista de Andrade

NOVELAS:

Na Idade do Lobo ( TV Tupi ) Os Deuses Estão Mortos (TV Record)

Direção Valter Avancyni Direção Carlos Manga

Escritor Sérgio Jokcman Escritor Lauro César Muniz

O arquivo da memória

Um dos primeiros programas de TV feito por Goulart de Andrade foi “Sumaré 22 horas”, exibido desde 1960 pela extinta Tupi – Canal 4. Sem registros de vídeo tape, claro, o âncora do programa exibe na sala de sua casa, um documento extraído dos arquivos do SNI, derivado desse programa de entrevistas.

É uma cópia de documento do SNI que descreve o “comunista” Goulart de Andrade…

“…Esse aí é meu diploma de preso. Lá pelos idos de 1969, entrevistei Nelson Gatto, onde ele contava no “Sumaré 22 horas” como havia sido traído pelo seu então superior hierárquico General Amaury Kruel, durante a ocupação da TV Excelsior, cujo objetivo era instalar ali, a base da contra-revolução, isso em 1968. Para refrescar a memória, Nelson Gatto foi repórter do Diário da Noite e depois virou chefe da Polícia Federal, em São Paulo, subordinado a Kruel. Este, por sua vez, nos primeiros movimentos do Golpe Militar, se posicionou contrário às lideranças golpistas e chegou a formar um pólo de resistência contra-revolucion ária, posição rapidamente revista por ele, passando a apoiar o golpe integralmente. Enquanto estava na “oposição”, Kruel ordenou que Gatto ocupasse a TV Excelsior, para transformar a emissora em uma base de comunicação. Eu e Gatto estávamos na emissora quando ele recebeu a informação da mudança de opinião do general e que ele seria preso nas próximas horas, por ordem de Kruel, inclusive. Fugimos pelo telhado e Gatto chegou a ficar na minha casa por um tempo até prosseguir na fuga para o Litoral de São Paulo…. Um ano depois, com a poeira assentada, entrevistei o velho amigo, onde ele relatou o episódio. Dias depois da entrevista, recebo a visita de um carro da Marinha, em minha casa, na Rua Alvarenga, 1540, onde um dos militares me entrega um ofício, me manda assinar e acompanhá-lo para um depoimento. O documento retratava a desinformaç& atilde;o daquela “inteligência”, pois ao invés de Goulart de Andrade, escreveram meu nome como “Ferreira Goulart”. Observei o equívoco, não assinei o documento, mas me dispus a acompanhá-los. Fiquei dois dias preso no prédio da Marinha, na Rua Rego Freitas – Centro de São Paulo. Lá me mandaram ficar nu e me fizeram muitas perguntas cheias de idiossincrasias, como “Você é Comunista?”, e outras tantas tolices que demonstravam que ninguém ali sabia o que realmente havia acontecido e por quê eu estava sendo interrogado”…

Sempre inédito

Goulart de Andrade contava que inúmeras vezes fez reportagens “PELA PRIMEIRA VEZ”, ou seja, fez alguma coisa em TV e no jornalismo que ninguém nunca tinha feito. O difícil é relacionar episódios, tidos como os mais importantes, sem incorrer no erro de deixar tantos outros para trás.

Mas o fato é que sempre trabalhou de forma independente, com os bônus e os ônus que essa independência acarreta. Carteira assinada? Recebeu apenas um carimbo, muito tempo atrás, na TV Jornal do Commércio – Recife – (1969)

Goulart era do tempo em que se dublava filmes ao vivo, e com o comando da sonoplastia e trilha sonora simultâneos.

Casos memoráveis :

– Primeira abordagem sobre a AIDS, com o Dr. José Roberto Teixeira – 1984

– Imagens do sub-solo de São Paulo com o Tatuzão

– Salto de pára-quedas monitorado por câmeras – o primeiro

– Enologia – o primeiro programa de TV a falar de vinhos

– Defesa ambiental – ararinha azul criada em cativeiro encontra o único espécime vivo para reprodução, na Chapada Diamantina

As andanças de Goulart de Andrade, desde sua incursão ao jornalismo renderam-lhe viagens pela Índia, África, Israel, China e que, se somadas, dariam duas voltas no Planeta. Só não visitou Cuba, mas o ministro da saúde cubano veio até ele, para mostrar o tratamento das doenças de pele, como psoríase e vitiligo, desenvolvido na Ilha de Fidel.

– Células tronco – a reportagem do Comando da Madrugada foi um dos raros espaços jornalísticos a explorar o tema. Isso uma semana antes do projeto ser votado.

– História familiar – Carmen Miranda foi sua madrinha.

– Os scripts do Comando da Madrugada, em seus primórdios, trazem pérolas de ousadia, inimagináveis nesses novos tempos.

– CLASSIFICADOS VIVOS: Eram espaços comerciais para empresas , estabelecimentos e produtos que não tinham verba para anunciar na TV . O próprio dono do negócio ia diante da câmera e falava das vantagens que oferecia. Os mais interessantes iam ao ar em forma de Comercial, mostrando donos de borracharias, oficinas de costura, lavanderias e etc, e cada caso era um episódio à parte.

– Os scripts trazem pílulas de Leon Eliachar que davam um molho humorístico especial ao programa.