Judeu ultra-ortodoxo esfaqueia 6 participantes de Parada Gay em Jerusalém

  • Por Agencia EFE
  • 30/07/2015 19h38

Elías L. Benarroch.

Jerusalém, 30 jul (EFE).- A Parada do Orgulho Gay realizada nesta quinta-feira em Jerusalém foi marcada por um ataque provocado por um judeu ultra-ortodoxo que esfaqueou seis participantes e que, em 2005, havia ferido outras três pessoas em um evento semelhante.

O ataque aconteceu na metade do trajeto percorrido pelos manifestantes, de 1.200 metros e que liga os parques da Independência e do Sino, no centro de Jerusalém. Este foi o único trecho autorizado pela polícia devido ao risco de que a passeata fosse alvo de intolerância.

“De repente vimos correr uma ou duas pessoas de uma calçada e então um homem começou a apunhalar as pessoas, uma após a outra. Foi tudo tão rápido, questão de segundos, que não pudemos distinguir quem era”, disse à Agência Efe Idi Mozes, defensora de direitos sociais no parlamento israelense (Knesset) e que participava do ato.

“Foi como um atentado, tudo ficou cheio de sangue. É uma situação insuportável. Ninguém é ciente da homofobia que há em nossas ruas, e não só dos ortodoxos, também dos laicos”, acrescentou.

A polícia confirmou pouco depois que houve um único autor e o identificou como Yishai Shlisel, um ultra-ortodoxo colocado em liberdade há apenas três semanas após cumprir uma pena de 10 anos por um ataque idêntico no qual esfaqueou três pessoas.

A Parada Gay de Jerusalém, que protesta contra a discriminação sofrida por gays, lésbicas e transexuais na cidade, contava com escolta de centenas de policiais e era monitorada com o auxílio de um helicóptero que sobrevoava a região.

Mas o grande efetivo policial não foi suficiente para impedir a rápida ação do criminoso, que se posicionou atrás da grade de um pequeno supermercado, de onde atacou suas vítimas.

O crime interrompeu imediatamente o ambiente de harmonia no qual transcorria a passeata, e várias ambulâncias e viaturas policiais e de outros serviços de emergência – entre elas unidades móveis da ONG ultra-ortodoxa Zaka – surgiram em meio à multidão rapidamente.

Uma adolescente foi internada no hospital Shaarei Tzedek em estado crítico, mas os médicos conseguiram salvá-la. Outras duas pessoas sofreram lesões graves, e três que tiveram ferimentos leves já deixaram o centro médico.

“Isto é muito grave. É um novo caso de intolerância que não podemos permitir”, afirmou à Efe Samuel Angel, um nova-iorquino de 19 anos que vive há três em Israel e que estava a poucos passos de onde aconteceu o ataque.

Entre os participantes, muitos reclamaram do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por não tomar medidas para impedir a homofobia.

“Este ataque nos lembra o que todos querem esquecer: que os homofóbicos fazem o que querem”, lamentou-se Yuri Shmilovich, de 32 anos, que veio de Haifa, no norte de Israel, e afirmou que “os gays e lésbicas e transexuais devem se esconder o tempo todo”.

Em uma enérgica condenação ao ataque, vários membros do governo, entre eles o primeiro-ministro, disseram que o criminoso será levado à Justiça.

O ministro de Segurança Interior, Gilad Erdan, convocou comandantes da polícia para analisar como Shlizel conseguiu burlar o esquema de segurança.

Luba Samri, porta-voz da polícia, disse à Efe que não existia nenhuma ordem de impedimento que evitasse a presença do agressor, que em 2006 disse ao confessar os primeiros esfaqueamentos que “tinha agido em nome de deus” porque “não podia permitir semelhante abominação” na cidade santa.

“Estou comovida por este fracasso da polícia e do serviço de prisões”, queixou-se Zahava Gal-On, dirigente do partido progressista Meretz, cuja juventude participou da manifestação.

Com a exceção de uma deputada pouco conhecida do Partido Trabalhista, nenhum representante do governo, nem um político de peso compareceu hoje à Parada Gay, ao contrário do que ocorreu na realizada em Tel Aviv, de proporções muito maiores e onde os principais políticos progressistas marcam presença.

Após o ataque, os cerca de cinco mil participantes seguiram a passeata até o parque do Sino, lentamente e em silêncio, ao contrário de como a manifestação tinha transcorrido até então.

Um dos grupos que mais chamou a atenção hoje foi a chamada Célula de Gays Religiosos, que, com seus solidéus e canções chassídicas, cantavam: “Bendito seja o Senhor, nós te louvamos, nós também somos teus filhos”. EFE

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