Mais de um milhão de russos ainda vivem em “cidades fechadas”

  • Por Agencia EFE
  • 16/02/2014 11h42

Ignacio Ortega.

Moscou, 16 fev (EFE).- Mais de um milhão de russos vivem ainda em cidades fechadas por motivos de segurança, já que abrigam arsenais ou instalações nucleares, uma “maldição” normalmente bem vista por seus habitantes.

“Viver em uma cidade fechada era um privilégio. Todos nos invejavam. Ninguém queria que abrissem os locais quando caiu a URSS”, afirmou à Agência EFE Nadezhda Osmolóvskaya, que residiu durante mais de 30 anos na ilha de Kronstadt.

Krobstadt, base da frota soviética e atualmente principal porto de São Petersburgo, era uma das muitas cidades cujo acesso estava restrito aos russos e terminantemente proibido para os estrangeiros.

A ilha abriu suas portas em 1996, da mesma forma que outras várias cidades, entre elas Atomgrad (Cidade do Átomo), mas 44 centros urbanos e seus territórios adjacentes seguem isolados do resto do país, de 142 milhões de habitantes, sob um regime especial.

Com o nome de Divisão Administrativa Territorial Fechada (ZATO, na sigla em russo), 33 delas estão sob o controle do Ministério da Defesa, outras 10 da corporação nuclear Rosatom e uma da agência espacial, Roscosmos.

Uma das mais conhecidas é a lendária Cidade das Estrelas, local de treino de cosmonautas há décadas, que se encontra nos arredores de Moscou e à qual se chega por uma estrada especial que termina subitamente em uma espessa floresta.

Na cidade de Zelenogorsk, na região siberiana de Krasnoyarsk, são realizadas atividades de enriquecimento de urânio, enquanto em Sárov (Nizhni Novgorod) são fabricadas armas nucleares e em Mirni (Arjánguelsk) se encontra a base de Plesetsk.

Todos os habitantes das cidades fechadas dispõem de um salvo-conduto com o qual podem entrar e sair de acordo com seu desejo, enquanto quem quiser chegar nestas cidades precisa de um convite expedido por um parente ou uma empresa.

As visitas turísticas estão proibidas, da mesma forma que ninguém pode chegar a essas zonas a pé ou em bicicleta, já que pode ser detido ou passar por algo ainda pior.

Na época soviética, as autoridades persuadiam os especialistas para residir em lugares como a atual cidade fantasma de Pripiat, perto da usina nuclear ucraniana de Chernobyl, oferecendo melhores salários e apartamentos.

“Vivi em Kronstadt desde 1976 e até pouco tempo. Trabalhava como professora de geografia em uma escola. Quando abriram a ilha, encheu de delinquentes”, rememora nostálgica Osmolóvskaya, cujo filho, Vitali, foi destinado à base naval.

Algumas dessas cidades soviéticas, que acolhiam bases de submarinos nucleares ou silos com mísseis intercontinentais, eram secretas e, de fato, não apareciam nos mapas, como era o caso do porto de Viliuchinsk, base de submarinos na península de Kamchatka.

As ZATO se orgulham de ter os níveis mais baixos de delinquência de toda Rússia, por isso que há cidades que desejam receber essa consideração, que as permitiria limitar a chegada de imigrantes, não só estrangeiros, mas de outras repúblicas russas.

Alguns defensores dos direitos humanos consideram que essas medidas são anticonstitucionais, já que impedem o livre deslocamento dos cidadãos, e dizem que obter uma permissão para chegar a essas zonas leva mais tempo que receber um visto para viajar para um país membro da União Europeia.

Mas nem tudo é vantagem, já que viver nas imediações de uma usina nuclear ou de um centro de destruição de armas químicas tem seus riscos, como ocorreu quando o fogo esteve a ponto de alcançar o centro nuclear federal de Sárov em 2010, o que obrigou a retirada do material radioativo.

Algumas cidades secretas não lamentam ter perdido essa condição, como Tomsk, que o temido delegado da cidade stalinista Lavrenti Beria transformou em cidade secreta e que, graças à abertura após a queda da URSS, se transformou no principal centro universitário da Sibéria.

As autoridades soviéticas também utilizaram essas cidades para expatriar inimigos do povo, como é o caso do Nobel da Paz e pai da bomba de hidrogênio, Andrei Sakharov, que foi confinado em um apartamento de Gorki, atual Nizhni Novgorod (1980-86).

Na Ucrânia e nas repúblicas bálticas ex-soviéticas agora membros da Otan já não há cidades fechadas, mas em outros lugares como no Cazaquistão ainda existem várias, como é a base russa construída perto da cidade de Baikonur, no coração do país centro-asiático. EFE