Milhares de pessoas protestam contra a intervenção russa na Ucrânia

  • Por Agencia EFE
  • 15/03/2014 14h23

Dezenas de milhares de pessoas – 50 mil, segundo os organizadores, e três mil, segundo as autoridades – saíram neste sábado às ruas de Moscou para protestar contra o que chamam de “agressão do Kremlin” contra a Ucrânia pela intervenção das tropas russas na separatista república ucraniana de Crimeia.

Os manifestantes, que levavam balões e bandeiras com as cores da Rússia e da Ucrânia e cartazes com palavras de ordem contra o presidente russo, Vladimir Putin, inundaram os bulevares da capital russa para exigir que se evite “uma guerra com o povo irmão da Ucrânia”.

Os ativistas cantaram “Fora, Putin!” e “Não à guerra!” enquanto marchavam com cartazes que diziam “Pela Rússia e Ucrânia sem Putin”, “Putin na prisão” e “Nosso inimigo está no Kremlin”.

“Todos saíram às ruas, já que nosso país atacou a irmã Ucrânia”, disse à Agência Efe um ativista que se identificou como Ivan.

“Tenho muitos amigos na Ucrânia. Tenho muitos amigos na Rússia. Não quero que os ucranianos e os russos matem uns aos outros. E nosso presidente, infelizmente, quer isso”, acrescentou.

Outro manifestante, Ilya, explicou que não quer que seu país “se meta nos assuntos ucranianos, sobretudo, através do uso da força”.

Por sua vez, a contadora Oxana Pinezhina justificou sua decisão de protestar com a postura do Kremlin que, segundo ela, radica em que “o Estado ucraniano não deve ter soberania, não deve ser independente”.

“Sou contra o referendo na Crimeia (de anexação à Rússia) que realmente acontece sob a mira de pistolas”, disse a contadora em alusão à suposta pressão que Moscou exerce sobre a península.

Poucas horas antes do início da manifestação, o histórico Anel dos Bulevares foi isolado por milhares de agentes de ordem pública, ao mesmo tempo que dezenas de caminhões bloquearam o acesso tanto para transeuntes como para automóveis desde as entradas de ruas adjacentes.

A única entrada à área dos protestos era o bulevar Strastnoi, aonde os manifestantes só puderam chegar através de um cordão policial e atravessando detectores de metais.

Essa paisagem urbana pouco usual para um fim de semana em Moscou foi acompanhada pelo barulho de um helicóptero policial que sobrevoava a área dos protestos, que se estendeu a uma distância de três quilômetros até a avenida Sakharov, onde a passeata terminou com um comício.

“Vladimir Putin de novo divide nosso país. Nos querem fazer chocar com o povo irmão, nos incitam a odiar uns aos outros”, declarou em um palco improvisado Ilya Yashin, um dos líderes da oposição extraparlamentar.

O ex-vice-primeiro-ministro e copresidente do partido liberal PARNAS, Boris Nemtsov, qualificou de “infame” e “grosseira” a política do Kremlin em relação à Ucrânia.

“Não temos nenhum direito de nos comportar assim com um país que é nosso amigo”, ressaltou.

Nemtsov disse que há uma semana esteve em Kiev e que a situação é de normalidade.

“Aqui (os meios de comunicação estatais) nos contam que ali (na capital ucraniana) os fascistas e ultranacionalistas ostentam confortavelmente. Estive passeando por Kiev dia e noite, pelo centro, pela Praça da Independência. Não consegui ver nem um só radical”, relatou.

O comício de protesto contou também com a participação das duas integrantes do grupo Pussy Riot, que recentemente saíram em liberdade após cumprir penas de prisão de dois anos por encenar na maior catedral do país uma prece contra Putin.

A passeata opositora no centro de Moscou coincidiu com uma organizada por várias organizações governistas sob o lema de “apoio à Crimeia e contra o fascismo”, na qual segundo a polícia participam até 15 mil pessoas.

De acordo com várias denúncias na internet, a maioria dessa marcha governista é formada por funcionários públicos, muitos dos quais supostamente foram levados ao comício em ônibus sob a ameaça de serem despedidos.