Milhões de bombas mantêm viva a lembrança da Guerra do Vietnã no Laos

  • Por Agencia EFE
  • 12/09/2015 12h39

Sonsoles Caro.

Vientiane, 12 set (EFE).- Passados 40 anos desde a Guerra do Vietnã, o Laos sofre ainda suas consequências devido à enorme quantidade de bombas disseminadas em seu solo durante o conflito e cujas explosões causaram desde então mais de 20.000 vítimas.

Embora o Laos não tenha participado ativamente no conflito, os americanos deixaram cerca de 270 milhões de bombas em seu território para evitar o abastecimento do exército vietnamita através do corredor conhecido como “Atalho de Ho Chi Minh”.

Parte dos artefatos disseminados por todo o país, de forma ininterrupta entre 1963 e 1974, não chegaram a explodir porque o terreno do Laos é argiloso e se estima que 30% deles permanecem sem detonar, o que equivale a 80 milhões de explosivos.

“Dois milhões de toneladas de artefatos foram lançados no Laos durante a guerra, contendo 270 milhões de bombas”, declarou à Agência Efe Soksai Sengvongkham, diretor da Cooperativa de Órteses e Próteses Empresarias (COPE).

Às margens do vasto rio Mekong, no sul da capital Vientiane, está a sede da COPE, uma organização local que junto ao governo do Laos fabrica próteses e órteses gratuitas e oferece tratamento de reabilitação a milhares de afetados.

Na entrada do local, três pacientes de idade avançada passam o tempo jogando petank, herança da colonização francesa do país, com pequenas estruturas de uma antiga bomba de fragmentação.

A COPE, fundada em 1997 em parceria com o Ministério da Saúde do Laos, foi criada devido à necessidade de proporcionar cuidados e apoio às vítimas dos projéteis.

Soskai esclareceu que o financiamento provém de diferentes países, entre eles os Estados Unidos, e de doações de particulares, e é utilizado para proporcionar acesso gratuito a todo o processo de reabilitação dos pacientes.

Na entrada do museu da COPE, dentro das instalações, centenas de próteses de pernas estão presas ao teto sustentadas por fios finos, formando uma visão incomum.

Em outra parte do museu estão expostos artigos achados ao longo das últimas quatro décadas, como estruturas de mísseis e uma enorme bomba de fragmentação, um artefato que contém centenas de pequenos fragmentos que, ao ser detonado, podem afetar uma área de entre 200 e 400 metros quadrados.

A organização local trabalha junto ao Programa Nacional de Munição Não Detonada do Laos (UXO Laos, na sigla em inglês), um projeto governamental que começou em 1996 e cuja função é detectar e desativar as bombas espalhadas por todo o país.

Segundo dados recolhidos pelo UXO Laos desde sua fundação até os dias de hoje, foram contabilizadas 934 vítimas, 655 feridos e 279 mortos, sendo que mais de 50% deles são crianças.

Os explosivos, chamados pelos locais de “bombies”, são a causa mais comum de acidentes atualmente, uma vez que 90% das vítimas são civis.

Phout, um jovem de 19 anos, sofreu um acidente de trabalho com uma “bombie” no ano passado enquanto trabalhava nos arredores de Vientiane. Como consequência perdeu a perna esquerda.

“Minha vida mudou desde então. A minha e a da minha família. Era o único que podia manter economicamente a minha família”, contou o rapaz à Efe.

“Me puseram uma prótese, mas ela se quebrou e estou esperando outra. Estou ansioso para voltar a caminhar e poder encontrar trabalho de novo”, comentou o jovem enquanto se apoiava em rudimentares muletas de madeira.

Soskai afirmou que o propósito do governo é erradicar até 2020 todas as bombas que ainda não detonaram, para que as pessoas possam enfim se ver livres dessa lembrança da Guerra do Vietnã. EFE

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