Moradores de rua vivem noites de ‘refugiados’

  • Por Estadão Conteúdo
  • 20/06/2016 08h55
São Paulo - Pessoa em situação de rua dorme na rua São Luís, região central (Rovena Rosa/Agência Brasil)Moradores de rua no frio

No centro da cidade mais rica do País, São Paulo, moradores de rua correm, durante toda a noite, atrás de caminhões com comida, agasalhos e cobertores. O grupo chega até a se agredir quando os mantimentos são distribuídos por religiosos e voluntários. A cena cotidiana na maior metrópole do hemisfério sul lembra as de campos de refugiados no exterior, onde quem não tem nada luta para sobreviver.

A população em situação de rua paulistana se amontoa no corredor que começa na Praça da Sé, passa pelo Pátio do Colégio, vai até o Largo São Bento e termina na Praça do Patriarca. O sopão é distribuído, na maioria das vezes, por igrejas evangélicas. Já as sacolas de roupas e cobertores são entregues por voluntários que se articulam pelas redes sociais. De sexta-feira (17), para sábado (18), a reportagem acompanhou a rotina das ruas. 

“Organizamos doações dos fiéis e nos dirigimos para cá, em geral, às sextas-feiras”, conta o pastor Luciano Souza da Silva, de 28 anos. Os evangélicos, porém, enfrentam desafios: nas calçadas, vale a lei do mais forte. Os pedidos de respeito às filas raramente são respeitados. Os mais violentos e impacientes têm de ser atendidos primeiro.

Cada um, assim, faz o que pode, “estou com um machucado na perna, não tem como você ver um cobertor para mim?”, disse, aos repórteres, uma mulher na casa dos 60 anos, que mancava e caminhava com dificuldade. Pouco antes, no entanto, sem coxiar, ela corria para ser a primeira da fila de um dos veículos de doação, onde uma confusão logo havia se formado. Um dos voluntários terminou por ajudá-la, sem fazer julgamentos.

Na Praça da Sé, houve até congestionamento de doações, “isso aqui também é um fluxo, o fluxo das doações”, afirmou Cleiton Marciano, morador local, usando expressão que serve tanto para descrever a área de maior movimento dos bailes funks como o local de venda e consumo de drogas na cracolândia, na Luz, também no coração da cidade.

A ajuda chega a todo momento. “Começa com sopão de um, de outro, e depois roupa, cobertor. Quando está para amanhecer, trazem café com leite e pão”, contou uma moradora, que não quis se identificar, com o filho no colo, “nesta semana, está vindo muita gente para doar roupa e cobertor, pois já morreram cinco”, disse a jovem, repetindo informações, divulgadas pelo padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, ainda não confirmadas pela Prefeitura. 

Os voluntários admitem a influência do noticiário, “fizemos uma campanha em um site e conseguimos juntar R$ 7 mil. Montamos kits com luva, touca, meia e cobertores ao custo de R$ 21 cada”, disse Rafael Rios, de 30 anos. Questionado sobre a forma como a gestão Fernando Haddad (PT) conduz o tema, ele se mostrou decepcionado e classificou a fala do prefeito sobre “refavelização” como uma “infelicidade”. 

A declaração foi dada após o jornal O Estado de S. Paulo revelar, na passada terça-feira (14), que guardas-civis estavam recolhendo colchões e papelões dos moradores de rua nas noites mais frias dos últimos 22 anos. Em seguida, Haddad pediu desculpas e elaborou decreto para proibir a remoção dos itens.

As reclamações dos moradores não se restringem, porém, apenas ao poder público, “olha, já que o senhor está fazendo uma reportagem, gostaria que escrevesse que os evangélicos deveriam se conversar, se organizar, para um dar arroz com feijão, outro dar sopa, outro dar outro prato. As pessoas têm necessidades muito diferentes por aqui”, disse um homem de barba aparada, que não quis dizer o nome. 

Poder Público

Em um período de cerca de três horas, a equipe de jornalistas viu dois veículos do governo do estado, cedidos para as igrejas evangélicas que faziam suas ações. 

Moradores de rua disseram que peruas de programas assistenciais da Prefeitura ficam estacionadas em um ponto da Praça da Sé, de onde agentes partem, a pé, para abordá-los e oferecer abrigo. Na última sexta-feira (17), segundo eles, a ação dos funcionários municipais já havia sido finalizada.

Questionada sobre a ausência de servidores, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) informou, em nota, que os trabalhos na madrugada são feitos por meio de rondas em pontos com grande concentração de pessoas e que esquadrões atuam em diferentes bairros da capital paulista.