Chefe de gabinete de Starmer renuncia após polêmica no caso Epstein
Saída ocorre após nomeação de Peter Mandelson, ligado ao criminoso sexual, para embaixada em Washington
O chefe de gabinete do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, renunciou neste domingo (8) devido à nomeação de Peter Mandelson como embaixador em Washington, apesar dos laços deste com o criminoso sexual condenado nos EUA, Jeffrey Epstein.
“Após cuidadosa reflexão, decidi deixar o governo. A decisão de nomear Peter Mandelson foi um erro. Ele prejudicou nosso partido, nosso país e a própria confiança na política”, afirmou Morgan McSweeney, chefe de gabinete de Downing Street, em comunicado. “Aconselhei o primeiro-ministro a fazer essa nomeação e assumo total responsabilidade por esse conselho”, completou.
O irlandês de 48 anos sempre manteve um perfil discreto, mas chegou a ser apelidado por alguns de “o homem mais poderoso da política”, tendo desempenhado papel fundamental na vitória expressiva de Starmer nas eleições de julho de 2024.
Ele é reconhecido por ter ajudado a reconduzir o Partido Trabalhista a uma agenda política mais centrista após o mandato conturbado do ex-líder de esquerda, Jeremy Corbyn. Dizia-se também que ele era próximo de Mandelson — figura que, por sua vez, ajudou o ex-premiê Tony Blair a transformar o partido e sanear suas finanças entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990.
A renúncia ocorre no momento em que o Ministério das Relações Exteriores anuncia a revisão de uma indenização paga a Mandelson, demitido por Starmer em setembro passado devido à sua amizade com o falecido Epstein.
Mandelson, figura central na política britânica e no Partido Trabalhista há décadas, recebeu uma indenização estimada entre £ 38.750 e £ 55.000 (aprox. US$ 52.000 a US$ 74.000) após apenas sete meses no cargo, segundo reportagem do Sunday Times.
Documentos divulgados em 30 de janeiro pelo Departamento de Justiça dos EUA parecem indicar que Mandelson teria vazado informações confidenciais do governo britânico para o financista Epstein quando era ministro, inclusive durante a crise financeira de 2008.
A revelação colocou Starmer sob intensa pressão e desencadeou uma investigação policial contra Mandelson, de 72 anos, por suposta má conduta em cargo público. O Ministério das Relações Exteriores afirmou em nota que iniciou a revisão da indenização “à luz de novas informações reveladas e da investigação policial em andamento”.
O ministro Pat McFadden insistiu anteriormente que Starmer deveria permanecer no cargo, apesar do “erro terrível” ao nomear Mandelson. Ele afirmou que a verdadeira culpa recai “diretamente” sobre Mandelson por aceitar a candidatura ao posto, mesmo ciente da extensão de seu relacionamento com Epstein.
‘Arrependimentos’
O vice de Starmer, David Lammy, tornou-se o primeiro ministro do gabinete a se distanciar do premiê, segundo o Sunday Telegraph. O vice-primeiro-ministro não era favorável à nomeação de Mandelson devido aos seus conhecidos vínculos com Epstein, citou a reportagem com base em relatos de amigos de Lammy.
O Partido Trabalhista de Starmer assumiu o poder há pouco mais de 18 meses, com uma vitória esmagadora nas urnas. No entanto, a legenda tem ficado atrás do Reform UK, partido anti-imigração de Nigel Farage, enquanto o governo enfrenta críticas sobre imigração, crescimento econômico e a crise do custo de vida. O Reform UK liderou as pesquisas de opinião com folga de dois dígitos no último ano.
Mandelson, que também foi comissário de comércio da União Europeia, renunciou ao seu assento na Câmara dos Lordes (a câmara alta do Parlamento) no início desta semana. O ex-embaixador foi uma das várias figuras proeminentes constrangidas pelas revelações recentes sobre laços com Epstein, que morreu na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual. As autoridades americanas classificaram a morte de Epstein como suicídio.
Um porta-voz do escritório de advocacia Mishcon de Reya, que representa Mandelson, disse que ele “lamenta, e lamentará até o dia de sua morte, ter acreditado nas mentiras de Epstein”.
“Lord Mandelson só descobriu a verdade sobre Epstein após a morte dele, em 2019. Ele lamenta profundamente que mulheres e meninas indefesas e vulneráveis não tenham recebido a proteção que mereciam”, afirmou o escritório.
Starmer prestou homenagem a McSweeney em comunicado: “Foi em grande parte graças à sua dedicação, lealdade e liderança que conquistamos uma maioria esmagadora. O nosso partido e eu temos uma enorme gratidão por ele”.
*Com informações da AFP


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