Em editorial, revista The Economist diz que Trump é “inadequado para governar”

  • Por Jovem Pan
  • 18/08/2017 12h41 - Atualizado em 18/08/2017 14h51
“Esse é um momento perigoso. A América está dividida em duas", diz a revista, que considera "Mr. Trump" desqualificado para a função de presidente

“Donald Trump não tem ideia do que significa ser presidente”. Esse é o título do duro artigo editorial da revista The Economist, que analisa o perfil do presidente dos Estados Unidos a partir de sua resposta aos conflitos racistas que eclodiram em Charlottesville.

A revista diz que os argumentos dos defensores de Trump (de que ele é um empresário que vai diminuir o tamanho do Estado e manter os EUA grande acabando com tabus e o politicamente correto) foram arruinados após a coletiva de imprensa no último dia 15 de agosto. A edição da revista de economia mais importante do mundo trouxe uma ilustração na qual o presidente aparece usando um megafone que na realidade é um capuz branco normalmente ligado à Ku Klux Klan, organização de cunho racista e segregacionista dos EUA.

Reprodução/The Economist

O periódico lembra que, em sua terceira manifestação sobre os protestos racistas e violentos de Charlottesville (Virgínia), Trump recuou do discurso roteirizado de segunda (14) no qual havia condenado os supremacistas brancos que marcharam com tochas em mãos contra a remoção da estátua de um general confederado, Robert E. Lee. O grupo entrou em confronto com manifestantes contrários ao ato neonazista, incluindo algumas pessoas da esquerda.

Na terça, Trump disse novamente que havia culpa “nos dois lados”. Para a The Economist, Trump “não deixou dúvida de qual lado está mais perto de seu coração”. A revista pondera que o presidente “não é um supremacista branco” e se posicionou contra os neonazistas, mas que sua “resposta instável contém uma terrível mensagem aos americanos”. “Longe de ser o salvador da República, o presidente deles é politicamente inepto, moralmente estéril e temperamentalmente inadequado à função”, afirma o texto.

O texto começa, então, a acentuar as críticas ao republicano, lembrando eventos e caraterísticas que corroboram os adjetivos atribuídos a Trump.

A revista projeta que “a extrema direita vai continuar a fazer mais protestos pelos EUA e Mr. Trump tem a complicada missão de conter suas marchas e manter a paz”. O editorial teme como esses temas controversos podem afetar os planos de Trump para a economia. Além de a última entrevista ter como pauta inicial planos para a infraestrutura do país, a revista lembra que a “semana da infraestrutura” em junho foi afogada pelas novas informações da acusação de interferência russa na eleição – caso que o próprio Trump ajudou a trazer à tona ao demitir o diretor do FBI.

Sobre a “falha moral” do presidente, a The Economist diz que “igualar os manifestantes (supremacistas) aos contramanifestantes revela sua superficialidade”. O editorial pondera que houve atos violentos dos que protestavam contra os neonazistas e que isso mereceria “algumas palavras duras” em parte do discurso. Mas enquanto os supremacistas ostentavam banners fascistas, tochas acesas, escudos e cantavam “judeus não vão nos substituir”, os contramanifestantes eram “cidadãos comuns” que se opunham a aqueles. “E eles tinham razão de fazê-lo”, diz a revista. “A aparente defesa de Trump a aqueles que marcham a favor de estátuas de confederados mostra até que parte a raiva e mágoa branca, nostalgia azeda é parte de sua visão de mundo”.

“Em tempos difíceis, é dever de um presidente unir a nação”, diz a The Economist ao citar o temperamento de Trump, que “não pode ir além de si mesmo”. “Em vez de compreender que seu trabalho honrar o cargo que herdou, Mr. Trump está preocupado apenas em honrar a si mesmo e assumir os louros por suas supostas vitórias”, critica.

A publicação compara Trump aos ex-presidentes Ronald Reagan (que tinha um compasso moral e autoconhecimento para delegar táticas políticas) e Lyndon Baines Johnson (homem difícil, mas habilidoso para cumprir muito do que era bom) e diz que o atual comandante dos EUA “não tem nem a habilidade nem o autoconhecimento” e mostrou nesta semana que não tem o perfil de quem vai mudar.

“Esse é um momento perigoso. A América está dividida em duas. Depois de ameaçar uma guerra nuclear com a Coreia do Norte, cogitar invadir a Venezuela e errar a respeito de Charlottesville, Mr. Trump ainda conta com o apoio de quatro quintos do eleitorado republicano”, pondera a revista.

A The Economist fala também sobre a relação do presidente, que não consegue avançar em sua agenda, com o Congresso. “Trump não é um republicano, mas o astro solo de seu próprio drama”. Os parlamentares que amarram seu destino ao do presidente “fazem mal ao seu país e ao partido”, afirma o texto. As tentativas rasas de franqueza do presidente “servem apenas a envenenar a vida nacional”, aponta. “Qualquer ganho de uma reforma econômica – e o crescimento das ações e baixo desemprego deve mais à economia global, empresas de tecnologia e fraqueza do dólar que a ele (Trump) – virá com um preço inaceitável”, escreve a revista.

“Os republicanos podem refrear Mr. Trump se escolherem fazê-lo. Mais do que tolerar seus ultrajes na esperança de que algo bom sairá de lá, eles devem condená-los”, conclui e conclama a revista The Economist.