Japão: Taxa de mortalidade caiu, mas suicídios aumentaram em 2020

Apesar de menos japoneses terem morrido no ano marcado pela pandemia do novo coronavírus, o número de mulheres que tiraram suas próprias vidas chama atenção em comparação com 2019

  • Por Bárbara Ligero
  • 24/02/2021 15h18 - Atualizado em 24/02/2021 18h21
EFE/EPA/KIMIMASA MAYAMAO distanciamento social evitou mortes de uma maneira geral, mas também afetou saúde mental e levou a suicídios

O Ministério da Saúde do Japão informou no início de fevereiro que houve uma diminuição na taxa de mortalidade do país em 2020. No ano marcado pela pandemia do novo coronavírus, houve 1,4 milhão de óbitos no território japonês, 9.300 a menos que em 2019. Ainda que tenha sido de apenas 0,7%, a diminuição surpreendeu o país, que além de possuir a população mais velha do mundo, só vinha registrando crescimento na taxa de mortalidade ao longo da última década. A principal suspeita é que as medidas de prevenção contra a Covid-19, como o uso de máscara, de álcool em gel e distanciamento social, acabaram causando o declínio de outras doenças respiratórias que levariam alguns japoneses à morte. Além disso, as restrições de circulação podem ter contribuído para um menor número de acidentes de trânsito fatais.

Por outro lado, a pandemia do novo coronavírus pode ter tido influência no aumento da taxa de suicídio entre as mulheres japonesas ao longo de 2020. Segundo dados do Ministério da Saúde, 6.976 mulheres tiraram suas próprias vidas no ano passado, 15% a mais do que em 2019, marcando a primeira vez que o índice cresceu em mais de uma década. Segundo o jornal The Japan Times, na capital Tóquio, uma a cada cinco mulheres vive sozinha, sendo que a obrigação de permanecer em casa pode ter acentuado os sentimentos de solidão. Ao mesmo tempo, muitas japonesas que vivem com outras pessoas sofreram para conciliar o home office com as tarefas domésticas e o cuidado com as crianças, obrigações que geralmente são dividas de forma desigual com os maridos e pais. O jornal aponta, ainda, para um aumento na quantidade de mulheres que perderam o seu emprego ou foram vítima de violência doméstica durante a quarentena.

Aprofundando-se no tema, a Associação de Serviços de Saúde Mental do Japão argumentou que a pandemia do novo coronavírus aumentou o estresse em uma população que já sofre consideravelmente com a pressão social. As mulheres, que geralmente são vistas como cuidadoras primárias, muitas vezes temem a humilhação caso falhem ao adotar as medidas de higiene e sejam infectadas pelo novo coronavírus. “As mulheres têm que cuidar da saúde de suas famílias e da limpeza e elas podem ser olhadas com desprezo se elas não estão fazendo isso certo”, explicou a diretora da instituição, Yuki Nishimura. A professora de ciência política da Universidade Waseda, Michiko Ueda, realizou uma pesquisa que apontou que 40% dos entrevistados se preocupam com a pressão social caso contraiam o vírus. “Infelizmente, a tendência atual é culpar a vítima”, afirmou a especialista.