Não é possível confiar em ausência de microcefalia na Colômbia

  • Por Jovem Pan
  • 18/02/2016 14h04
Pequena ManuellyImagens de zika

Por que não há casos de microcefalia na Colombia apesar do surto de zika no país? Afinal, segundo os dados oficiais, são mais de 30 mil casos notificados e 5 mil grávidas infectadas pelo vírus. Parece uma pergunta bem coerente e, de quebra, levanta suspeitas sobre as descobertas brasileiras relatadas até agora. A resposta, no entanto, é ainda mais coesa.

“Não começaram a nascer os bebês com microcefalia ainda”. O vice-presidente da Associação Nacional de Neurocirurgia da Colombia Marco Fonseca Gonzalvez esclarece é que não há bebês com a anomalia porque simplesmente não deu tempo.

Se os primeiros casos de zika foram relatados pelas autoridades em agosto, logo, as crianças só vão nascer em abril, maio. É só fazer as contas.

Mas podemos ir mais a fundo na investigação do questionamento que viralizou em redes sociais do Brasil, grupos de whatsapp e consultórios médicos, desde a afirmação do presidente colombiano no começo do mês. A proclamação quase orgulhosa de que não há casos de microcefalia no país de Juan Manuel Santos ganhou destaque de capa do “The New York Times”.

Primeira ponderação: Um partido da Colombia, o Aliança Verde, denuncia que há sim ao menos um relato da anomalia cerebral na Colombia, apesar das autoridades de saúde não confirmarem. Segunda: Há brechas nos dados oficiais.

Dados não confiáveis

A pedido da Jovem Pan, um dos maiores especialistas do Brasil em zika vírus analisou o boletim epidemiológico do país. A conclusão do infectologista Artur Timerman é de que falta embasamento científico na fala do presidente e nos próprios números:

“Não há nenhuma menção de como foi estabelecido esse diagnóstico, qual teste sorológico foi utilizado (…). Então não entendo como ele fez esse diagnóstico de 5 mil grávidas. Eu imagino que esse número é muito grande. Seria cerca de 10% das grávidas colombianas. Como ele faz uma afirmação dessa ordem? Mais além: como ele faz a afirmação de que todas essas mulheres não estão gerando crianças com microcefalia?”, questiona.

O professor de neurologia da Universidade de Santander, na Colombia, reforça a desconfiaça. Segundo Marco Fonseca Gonzalvez, os números não retratam a realidade do país porque, simplesmente, não estão sendo feitos exames nos pacientes que apresentam os sintomas de zika.
Ele estima que apenas 1 em cada 100 relatos têm o vírus confirmado em laboratório. “Os números oficiais não têm nada a ver com a realidade, pois não se está fazendo a análise de anticorpos de todos os pacientes”, pondera.

De acordo com o médico, há um sobrecarga enorme na infraestrutura do sistema de saúde para garantir todas as análises, mas também falta interesse político para dar transparência aos reflexos do surto que tem gerado pânico entre as colombianas grávidas.

Outro problema

Apesar da premência de casos de microcefalia em bebês, o que tem preocupado de fato o governo da Colômbia é o aumento significativo de casos da rara síndrome de Guillain-Barré.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, nos últimos 6 meses o número triplicou. Por isso, neste momento, estudos tentam encontrar a resposta para outra pergunta bastante coerente, como a que iniciamos esta reportagem:

Por que a Colombia tem mais casos da síndrome de Guillain-Barré do que o Brasil, que também vive uma epidemia de zika?

Isso ainda ninguém sabe.

Reportagem Jovem Pan de Carolina Ercolin