Ninguém sabe o que acontecerá com Brexit, diz diretor-geral da OMC

  • Por Estadão Conteúdo
  • 16/06/2016 13h37
Brasileiro Roberto Azevêdo enfrentará grandes desafios no comando da OMC

O diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, disse que “ninguém sabe” o que ocorrerá com o comércio mundial e com a União Europeia (UE) caso o Reino Unido realmente saia do bloco econômico, o chamado Brexit. No próximo dia 23, ocorrerá o referendo que decidirá se o país insular deixará ou não o bloco.

“Vai depender das condições de negociação que, a meu ver, terão que acontecer com todos os membros da OMC, além de todos aqueles que a União Europeia tem preferência tarifária e ninguém ainda sabe o resultado disso. É muito difícil mensurar o impacto para o Reino Unido e para as outras economias parceiras da Grã-Bretanha, inclusive o Brasil. Lamentavelmente, não há uma resposta muito óbvia”, declarou, a jornalistas, após participação no “Brazil Business Day”, evento promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela International Chamber of Commerce (ICC).

China

Questionado sobre o reconhecimento da China como economia de mercado, o protocolo de acessão da China à OMC, que foi firmado, em 11 de dezembro de 2001, vence neste ano e os países-membros do órgão estão discutindo se todos são obrigados a adotar o reconhecimento definitivo dos chineses. Azevêdo comentou que é um tema importante, que está sendo debatido em todas as capitais e setores e, aqui no Brasil, a preocupação maior é do setor siderúrgico, “não posso dizer qual é a interpretação que está no protocolo, mas ele não é uma frase apenas. É um problema político, não é técnico e nem questão legal. Se é importante para vocês, é relevante para a China e, com certeza, não será tratado como técnico por ela”, conjecturou.

O estadista informou que teve reunião com o ministro das Relações Exteriores (MRE), José Serra, e com o Ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira, e sobre esse assunto disse que “eles têm a perfeita consciência da sensibilidade política do tema”. 

Em 2005, o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinou um decreto no qual o Brasil se compromete em cumprir o protocolo “tão inteiramente como nele se contém”, o País, contudo, ainda não resolveu se irá ou não fazer o reconhecimento da China como economia de mercado. Azevêdo, que é brasileiro disse que nossas autoridades “têm um tempinho aí para pensar. Mas não me incluam nessa, me deixem de fora dessa”, brincou com os jornalistas, mostrando a postura neutra que a OMC tem sobre o assunto, “a OMC é um caso de uma ONG que não pensa. Quem pensa são os membros e eles que decidirão. Nós apenas tomaremos a decisão se algum país ou a própria China não concordarem em ações antidumping ou caso o Estado chinês seja definitivamente reconhecido”, ponderou.

Debate do comércio global

Um pouco antes de participar do evento, o representante falou rapidamente com o Broadcast (serviço de notícias em tempo real da Agência Estado) e comentou que acha muito positivo que o comércio global esteja sendo debatido no Brasil, “não é uma conversa fácil porque inserção no comércio internacional passa por um debate de competitividade que tem vários elementos diferentes. Mas, por muito tempo, o comércio exterior no Brasil era como se fosse o Plano B, C, D. O objetivo era o mercado doméstico e se der, se sobrar alguma coisa, vamos exportar. É claro que isso não era de maneira genérica, tem exceções e o setor agrícola claramente é uma delas. Contudo, o fato de se estar falando de estratégia de desenvolvimento econômico é muito positivo”, declarou.

Na palestra, o diretor-geral da OMC ressaltou que o comércio exterior precisa fazer parte das estratégias das empresas brasileiras e é relevante que o Brasil busque avançar em vendas externas em várias frentes, que é o tipo de estratagema mais comum. Além disso, projetou que o setor privado precisa ajudar os governos a buscarem mais negócios no mercado internacional, “eu já fui negociador. Negociador é um animal muito rápido, raramente não tem feedback do setor privado. Precisamos que as grandes empresas alimentem os negociadores de demanda, de retorno”.

Azevêdo ainda destacou o acordo de facilitação de comércio, que já conta com a ratificação de mais de 80 países-membros. Entretanto, acredita ser necessária a adesão de mais de dois terços do total de 162 membros do Organização. O Brasil fez a ratificação, em março último, o que, conforme perspectiva, representa uma decisão de facilitar a inserção do País no mercado internacional.

Sobre as projeções da OMC sobre o comércio global, o executivo pontuou que elas foram revisadas pelo impacto da desaceleração da economia internacional, “não voltará ao patamar pré-crise, mas claramente estamos muito abaixo do potencial que temos. Não podemos ficar de braços cruzados, há muito a se fazer”.