O “dia dos quatro papas” unidos pelo Concílio Vaticano II

  • Por Agencia EFE
  • 26/04/2014 16h38

Juan Lara.

Cidade do Vaticano, 26 abr (EFE).- Pela primeira vez na história da Igreja dois papas, um em plenos poderes e outro aposentado, concelebrarão amanhã a missa em que serão proclamados santos outros dois pontífices, um dia que já está sendo chamado na Itália como o “dia dos quatro papas”.

Francisco canonizará João XXIII, o “papa bom”, e João Paulo II “o grande” diante de mais de um milhão de pessoas em cerimônia na Praça de São Pedro que será assistida por Bento XVI, que há um ano sacudiu os alicerces da Igreja ao renunciar ao pontificado, o que não acontecia desde Celestino V em 1294.

Nunca na história da Igreja tinha acontecido uma situação como a deste 27 de abril, da mesma forma que nunca um pontífice, Bento XVI, tinha beatificado seu antecessor, como fez em 1º de maio de 2011 quando elevou à glória dos altares João Paulo II.

João Paulo será proclamado santo junto com João XXIII, o pontífice com aspecto popular, bonachão, que foi eleito sucessor de Pedro no final de 1958 quando tinha 77 anos e todos pensaram que seria um papa de transição, e que apenas três meses depois de empossado surpreendeu o mundo ao convocar um concílio ecumênico.

Era 25 de janeiro de 1959 e três anos mais tarde, na presença de 2.540 bispos de todo o mundo, o papa bom abriu na Basílica de São Pedro o Concílio Vaticano II, que contou com a participação do jovem teólogo alemão Joseph Ratzinger (depois Bento XVI), como consultor e analista.

“Foi uma experiência única”, afirmou Bento XVI há dois anos, quando o concílio completou meio século, quando ainda disse que o Vaticano II continua sendo válido e que os documentos elaborados nesse “grande evento eclesial são uma bússola que permitem à Igreja navegar em mar aberto para chegar à meta”.

O Vaticano II, um dos eventos que marcaram o século XX, foi um concílio ecumênico que superou todas as expectativas, já que rompeu com quatro séculos da Igreja tridentina e mudou suas relações com a sociedade e com as outras religiões.

João XXII achava que deveria renovar a Igreja, colocá-la em dia em sua linguagem, ritos e rezas e em suas relações com a sociedade e outras culturas e religiões.

O 21º concílio da história da Igreja se abriu em 11 de outubro de 1962 e durou até 8 de dezembro de 1965. João XXIII não pôde encerrá-lo, pois que morreu em 3 de junho de 1963, doente de câncer, no que foi tocada por seu sucessor, Paulo VI.

Do Vaticano II foram elaborados 16 documentos, entre eles “++Gaudium++ et ++Spes++”, com o qual se passava de uma Igreja fechada em si mesma a uma que se sentia parte do mundo, e “++Nostra++ ++Aetate++”, com o qual se retiraram as acusações contra os judeus, ao cancelar a acusação histórica de deicídio.

O Vaticano II reformou a liturgia, cuja mudança mais visível foi a adaptação às línguas vernáculas e a decisão de os sacerdotes oficiarem a missa de frente para os fiéis, e deu um maior papel aos laicos.

Após a morte de Paulo VI e o breve pontificado de João Paulo I, foi João Paulo II que ficou responsável por dar continuidade ao processo. Setores da Igreja garantem que durante seus 27 anos de pontificado aconteceu um “interrupção brusca” e inclusive um retrocesso.

Bento XVI afirmou por várias vezes que após o Vaticano II surgiu “uma utopia anárquica entre alguns membros da Igreja convencidos de que seria tudo novo” e que se cometeram vários abusos da liturgia. Daí, assinalou, a necessidade de uma “releitura” de alguns aspectos.

João Paulo II e Bento XVI, no entanto, sempre mantiveram a validade e defenderam o concílio que lançou a Igreja ao terceiro milênio. Francisco é também um defensor do Vaticano II.

O papa argentino não tem dúvidas da santidade de João XXIII, e por isso o proclamou santo sem a confirmação do segundo milagre, como determina a legislação vaticana.

João XXIII foi beatificado em 2000 junto de Pio IX, o polêmico último papa-rei. A beatificação de dois papas de pensamentos totalmente opostos levantou uma forte polêmica. Setores da Igreja denunciaram que estava sendo cometida uma injustiça com João XXIII.

Agora será canonizado junto ao pontífice mais midiático da história da Igreja e de novo alguns setores da Igreja denunciaram que João XXIII ficará “ofuscado” nessa celebração. EFE