Obsoletos, trens antigos da Tailândia conservam memórias e admiradores

  • Por Agencia EFE
  • 14/05/2015 16h05

Gaspar Ruiz-Canela.

Kaengsuaten (Tailândia), 12 mai (EFE).- Os lentos e obsoletos trens da Tailândia causam aversão na maioria dos passageiros, exceto para os amantes da ferrovia que são encantados pelas velhas locomotivas e estações de madeira.

O tailandês Pornchalit Krutmuang, de 30 anos, ainda lembra a emoção que sentia quando criança, na época em que pegava o trem para visitar a avó, uma imagem que perdura na memória e alimenta sua paixão pelo trem.

“Desde pequeno eu tinha que pegar muitos trens para visitar a minha avó, e gostava muito. Os trens, a vista. Desde então, é a minha paixão”, disse à Agência Efe.

Pornchalit estudou Engenharia e agora trabalha em uma empresa de telecomunicações, mas nunca deixou de usar os trens. E não só para viajar, mas também para desfrutar da sensação do trem balançando, o apito da locomotiva e as paisagens através das janelas.

Há dez anos, esse tailandês fundou com outros amantes do trem o site “Rotfaithai.com” (“trem tailandês”, em tailandês), um coletivo que organiza viagens em diferentes trens na Tailândia para desfrutar, tirar fotos e obter informações que depois são divulgadas no portal.

Com o passar dos anos, o grupo expandiu as atividades e colabora com uma agência especializada em organizar excursões com trens fretados.

Em uma dessas viagens programadas, Pornchalit e seus colegas foram a Hualampong, a estação central da ferrovia em Bangcoc, de estilo modernista e onde os mochileiros se misturam com os camponeses que voltam a seus vilarejos. Vendedores ambulantes, que ganham cerca de 200 bath (R$ 18), por dia, carregam ovos, mangas verdes e peixes em cestas na cabeça.

O trem é um Daewoo sul-coreano a diesel de 1996 com dois vagões integrados à locomotiva, o modelo mais moderno sobre as vias tailandesas.

Mais de 12 membros do “Rotfaithai.com” e vários excursionistas se acomodam nos assentos do trem, que passa por campos de arroz, girassóis e cana de açúcar nas província de Nakhon Ratchasima e Lopburi.

“Pessoalmente, gosto mais dos trens antigos porque se conectam mais comigo. Agora, os tailandeses preferem o ônibus e o avião porque o trem é lento, mas às vezes esses trens lentos permitem aproveitar melhor a viagem e a paisagem”, comentou Pornchalit.

O interior dos trens é uma viagem no tempo aos anos 70, com ventiladores que não funcionam, já que foram substituídos por sistemas de ar condicionado, e banheiros estreitos no estilo turco, com um buraco no chão.

Muitos excursionistas aproveitam o ambiente retrô para ir ao norte ou a Kanchanaburi, a província ocidental onde se encontra a famosa ponte do trem da Segunda Guerra Mundial popularizada pelo filme “A Ponte do Rio Kwai”.

No entanto, os admiradores do trem reconhecem que a ferrovia também precisa se modernizar, ampliar o número de vias e inclusive aumentar a velocidade para reduzir os trajetos que, por exemplo, demoram de 12 a 13 horas para cobrir os 680 quilômetros entre Bangcoc e Chiang Mai, uma cidade turística no norte.

“Muita gente viaja de trem, mas não chega a todas as partes, por isso que não é realmente o meio de transporte mais popular”, argumentou Chalaew Waikanha, de 51 anos, chefe da estação de Hualampong, por onde passam cerca de 25 mil passageiros por dia, segundo ele.

Chalaew lembra que, quando era jovem, usava trens que ainda utilizavam madeira como combustível. O modelo mais antigo em atividade na Tailândia é um UM12C, da General Electric, construído em 1964, enquanto outros trens, todos movidos por motores a diesel, são máquinas da fabricante francesa Alstom ou das japonesas Hitachi e Tokyu, entre outras.

A junta militar da Tailândia resgatou um projeto para implantar a alta velocidade entre Bangcoc e cidades turísticas como Hua Hin e Pattaya, uma iniciativa que estava há anos parada nas gavetas dos ministérios.

As autoridades também firmaram acordos com empresas chinesas e japonesas para duplicar a malha ferroviária, já que em muitos trechos só existe uma via, o que atrasa os trajetos com trens que têm que esperar para ceder passagem.

O lado ruim do projeto, segundo alguns admiradores dos velhos trens, é o perigo de muitas estações antigas de madeira desaparecerem para dar lugar à dilatação do traçado das vias.

Talvez o maior atrativo dos velhos trens seja que a terceira classe é de graça para os tailandeses, mas o governo já anunciou medidas para limitar esse privilégio a menores de idade, idosos, religiosos e deficientes. EFE

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