Ônibus entram na luta contra o assédio sexual em Marrakesh

  • Por Agencia EFE
  • 27/03/2015 10h33

Fátima Zohra Bouaziz.

Marrakesh (Marrocos), 27 mar (EFE).- Os ônibus urbanos da cidade marroquina de Marrakesh contam desde o início desta semana com um plano para lutar contra o assédio sexual, em um país onde duas em cada três mulheres confessam ter sofrido abusos em algum espaço público.

O plano inclui várias medidas, como cartazes interiores de sensibilização contra a violência à mulher, a divulgação de vídeos nas telas dos veículos e até a formação dos motoristas sobre como devem intervir caso ocorram casos de assédio durante o trajeto.

As iniciativas são fruto de um convênio assinado na segunda-feira passada em Marrakesh entre a companhia espanhola Alsa, concessionária do transporte urbano de Marrakesh, e a ONU-Mulheres, com financiamento da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).

O diretor-geral da Alsa Marrocos, Alberto Pérez, disse à Agência Efe que estas ações se somam a outras como a colocação de câmeras de segurança em metade da frota da empresa, além da presença de 30 agentes de segurança privada que supervisionarão os veículos.

As medidas que terão como ponto de partida a turística Cidade Vermelha se estenderão também a outras onde a companhia espanhola opera, como Tânger e Agadir.

A representante da ONU Mulheres no Marrocos, Leila Rhiwi, explicou a escolha dos ônibus porque o transporte coletivo é precisamente um espaço no qual as mulheres sofrem diariamente diferentes formas de violência que dificultam sua liberdade de movimento nos espaços públicos e limitam seu direito à livre circulação.

Segundo os últimos dados de uma pesquisa nacional de violência contra as mulheres do Alto Comissariado do Plano, quase 63% de mulheres sofreram alguma forma de violência nos espaços públicos, uma porcentagem que chega até 67,5% no meio urbano.

Nestes espaços, os ônibus se apresentam como os lugares propícios onde ocorrem todos os tipos de abusos contra as mulheres: assédio, agressões, uso de linguagem grosseira ou intimidações.

Nadia, uma usuária cotidiana de ônibus, lamenta os recorrentes assédios sofridos pelas mulheres, e ressalta que muitas vítimas nem sequer protestam por medo do agressor ou por temor de que outros passageiros culpem as vítimas por suas roupas, maquiagem ou atitude.

“Há homens que só sobem no ônibus quando está cheio. Uma vez vi um homem que ficou atrás de uma mulher e começou a assediá-la. Ao vê-lo, algumas mulheres próximas começamos a gritar, mas ele nem se intimidou; e mais, começou a insultá-las e desceu tranquilamente do ônibus”, relatou Nadia.

A iniciativa de um transporte público seguro para as mulheres entra no marco do programa “Cidades sem violência para as mulheres, cidades seguras para todas”, lançado pela ONU-Mulheres em 2008 em 21 cidades do mundo como Quito, Cairo e Dublin para combater o assédio sexual e outros tipos de violência contra a mulher nos espaços públicos.

Marrakesh é uma das cidades escolhidas para a aplicação deste programa, que consiste em envolver as próprias mulheres para dar sua percepção de segurança sobre os espaços públicos que frequentam e, a partir daí, propor soluções com as autoridades locais e a sociedade civil para lutar e prevenir as agressões verbais ou físicas contra a mulher.

A diretora geral da AECID no Marrocos, Cristina Salinas, ressaltou que a importância deste programa no Marrocos radica na conscientização das mulheres sobre outras formas de violência que sofrem diariamente e que não tinham identificadas como tal, além das agressões físicas.

O assédio é tão recorrente para grande parte das marroquinas que elas preferem aplicar suas próprias receitas: deixar de sair durante a noite, não se aproximar das paradas de táxis ou ônibus e evitar caminhar por certas ruas e bairros.

Mais tarde, o resultado é voltar a privar as mulheres do espaço público.

“O assédio se expandiu de tal maneira que é raro ver uma mulher se sentar sozinha em um jardim público para desfrutar da paisagem sem que se sinta agredida, pelo menos psicologicamente”, lamentou a ativista Amal Alami. Ela pelo menos está entre as que não se calam. EFE

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