Orfanato de bebês de elefante do Quênia, arma contra a caça ilegal

  • Por Agencia EFE
  • 27/05/2014 06h14

Jéssica Martorell.

Nairóbi, 27 mai (EFE).- Cerca de 30 filhotes de elefante, que ficaram órfãos por causa da caça ilegal, vivem agora cercados de carinho em um refúgio pioneiro em Nairóbi, capital do Quênia, que se transformou em uma valiosa arma para lutar contra o tráfico de marfim na África.

A ameaça que pende sobre o maior animal terrestre é tão extrema, que seu pior inimigo, o ser humano, é também sua única esperança.

Por isso, Daphne Sheldrick, em memória de seu marido David, o famoso naturalista e fundador da reserva de Tsavo (maior parque natural do Quênia), criou em 1977 o Sheldrick Wildlife Trust.

A apenas alguns quilômetros do centro da capital queniana, este orfanato pioneiro em nível mundial acolhe, dentro do Parque Nacional de Nairóbi, 30 filhotes de elefantes e dois rinocerontes resgatados depois que suas mães foram assassinadas.

Os pequenos paquidermes recebem ali cuidados e carinho, até crescerem e serem capazes de se reintegrar às manadas selvagens.

Agora é Angela, a filha de Daphne, que continua o legado familiar e dirige o orfanato, um dos locais mais visitados de Nairóbi.

A cada dia, dezenas de turistas de todo o mundo chegam para observar de perto estes grandes órfãos da África, na única hora da manhã em que o centro abre para o público.

Durante esse tempo de recreio, os bebês de elefantes, nos quais as presas debaixo da tromba mal começaram a aparecer, se divertem brincando com barro e bebem as enormes mamadeiras de leite que são preparadas por seus cuidadores.

Estes órfãos gigantes têm um nome e escondem uma triste história: suas mães foram assassinadas para servir o comércio ilegal de marfim, que provoca o assassinato de um elefante a cada quinze minutos na África, segundo dados do orfanato.

O chefe dos cuidadores, Edwin, explicou à Agência Efe que suas emoções são muito parecidas com as dos humanos.

Os elefantes chegam ao centro cheios de agressividade e desolados porque perderam suas mães, por isso que os cuidadores tentam suprir esta carência com muita atenção e carinho. Os filhotes menores de um ano são cobertos para serem mantidos aquecidos, simulando o calor da mãe.

O menor paquiderme do orfanato tem pouco mais de três meses, se chama Kauro e foi achado quando tinha apenas duas semanas de vida na reserva de Samburu, no norte do país, depois que sua manada foi atacada por caçadores ilegais. Sua mãe foi assassinada, e Kauro perdeu parte de sua tromba.

“Estamos com eles o dia todo. Passeamos com eles, brincamos e, cada vez que pedem leite, a qualquer hora, damos. Pode ser até oito vezes diárias, dependendo do apetite”, contou Edwin.

Um dos grandes desafios foi conseguir uma fórmula de leite adequada que igualasse a qualidade nutricional do leite materno. Durante quase três décadas, o refúgio viu muitos dos filhotes não sobreviviam mas, ao fim, acharam a receita ideal.

“O leite é vegetal, mas não pode ser produzido no Quênia. O importamos da Inglaterra, o que faz com que o processo seja muito caro”, disse à Efe o cuidador.

Mas o mais difícil de tudo é a reinserção dos elefantes na vida selvagem em Tsavo, momento no qual têm que se desprender do profundo carinho de seus cuidadores e seguir a irresistível chamada da natureza.

Segundo Edwin, este longo processo começa quando os elefantes têm dois anos, e pode durar um máximo de dez dependendo de cada animal.

“É o mais complicado, embora ao mesmo tempo muito satisfatório, porque todos levam o instinto de voltar à vida selvagem em seu interior”, assinalou o cuidador.

O centro também permite que os filhotes sejam apadrinhados por US$ 50 por ano para contribuir com o financiamento dos US$ 900 que cada elefante gasta, incluindo remédios, alimentação e salários de cuidadores.

Algumas celebridades se uniram a esta luta contra a caça ilegal, como a atriz americana Kristin Davis, que recentemente organizou um ato beneficente em Londres para arrecadar fundos para o orfanato.

Longe ficaram os tempos nos quais estes animais exploravam a África seguindo suas ancestrais rotas migratórias. A caça ilegal de elefantes e rinocerontes se tornou habitual em países como África do Sul, Quênia e Camarões.

Atualmente, cerca de 100 mil elefantes do continente, 20% da população total, estão ameaçados de desaparecer na próxima década, segundo o Comitê Permanente da Convenção Internacional para a Proteção de Espécies Ameaçadas.

“Quando as pessoas de todo o mundo compram produtos fabricados com presas de elefante, estão participando desta tragédia. Todo o mundo pode ajudar a diminuir a caça ilegal, se quiser”, disse Edwin. EFE

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