Organizações dizem que ex-repressores paraguaios são indenizados como vítimas

  • Por Agencia EFE
  • 03/02/2015 16h29

Assunção, 3 fev (EFE).- Organizações em defesa dos direitos humanos denunciaram nesta terça-feira graves “negligências” no pagamento de indenizações às vítimas da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989) e que inclusive alguns dos beneficiados são antigos colaboradores e repressores do regime.

A denúncia foi realizada pela Mesa da Memória Histórica e a Coordenadora de Organizações de Direitos Humanos do Paraguai (Codehupy), em coincidência com o 26° aniversário do final da ditadura por causa do golpe militar que aconteceu entre 2 e 3 de fevereiro de 1989.

Enrique Gauto, secretário-geral da Codehupy, disse à Agência Efe que foram detectados casos de pessoas que recebem indenizações como vítimas da ditadura, quando na realidade foi constatado que são “antigos delatores, espiões e inclusive repressores” que operavam em favor do regime.

Gauto não deu nomes e nem citou casos específicos sobre essas cobranças ilegítimas.

Dias atrás Sonia Aquino, membro da Coordenadora de Lutadores e Vítimas da Ditadura (Codelucha), disse à Agência Efe que um destes repressores que solicitaram pagamentos como vítimas seria Dardo Casteluccio, um conhecido militante neonazista que perpetrou ataques contra comunidades judaicas durante a ditadura.

Casteluccio, que segundo Aquino foi um “conhecido colaborador da ditadura”, foi detido por esses ataques durante o regime de Stroessner, e por causa da prisão, já na democracia, foi reconhecido como vítima e passou a receber uma indenização.

No entanto, a indenização foi retirada após a denúncia de Codelucha, de acordo com Aquino.

Por sua vez, Dionisio Gauto, integrante da Mesa da Memória Histórica, criticou hoje o atual sistema por tramitar indenizações que impõe “excessivos requisitos burocráticos” aos que querem demonstrar que foram vítimas da ditadura.

Gauto denunciou, além disso, que em outros casos os funcionários da Defensoria Pública, o ente encarregado de tramitar as denúncias das vítimas da ditadura, “solicitaram subornos em troca de agilizar os trâmites”.

Segundo Gauto, com isso está tentando “transformar a memória em um negócio lucrativo”.

Tanto Codehupy como a Mesa da Memória criticaram duramente a gestão da Defensoria Pública, cujo titular, Manuel Páez Monges, está desde 2001 no cargo, apesar de seu mandato ter vencido há seis anos, e pediram mais uma vez ao Senado que inicie o processo de nomeação do novo Defensor.

Um relatório da estatal Comissão de Verdade e Justiça (CJV) apresentado em 2008 registrou 425 executados ou desaparecidos e quase 20 mil detidos por questões ideológicas durante o regime de Stroessner, a grande maioria vítimas de surras, cadeira elétrica, queimaduras e outras formas de tortura física. EFE

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