Outra Síria vive no centro comercial de Damasco

  • Por Agencia EFE
  • 16/09/2015 07h59

Jorge Fuentelsaz.

Damasco, 16 set (EFE).- Longe dos milhares de refugiados que diariamente partem rumo à Europa em busca de melhores condições, mas apenas a poucos quilômetros de locais tomados por grupos rebeldes, o centro de Damasco transborda uma vida quase impensável dentro de um cenário de conflito que abala a Síria há mais de quatro anos.

Entre Abu Rumane e Shaalan, em uma direção, e entre o Banco Central da Síria e a praça de Al Madfa, na outra, centenas de pessoas lotam à noite dezenas de cafeterias, lojas, restaurantes e bares que se multiplicam na região.

Desde grupos de adolescentes que aderem à moda “hipster” ou jovens usando roupas curtas até famílias com idosos, várias pessoas passeiam tranquilamente pelas ruas do centro comercial da cidade.

Apenas algumas crianças e adultos pedindo esmola em uma das esquinas da região rompem a imagem inusitada oferecida por esta Damasco noturna, onde os mesmos homens que sempre lotaram os cafés seguem frequentando a região como se nada estivesse ocorrendo no país.

Dentro do reduto, ninguém teme os morteiros que caem de forma indiscriminada em outros bairros da capital síria, uma situação que não se repete quando é preciso sair do centro comercial.

“Sim, morro de medo”, afirmou um taxista após o pedido de uma viagem até Bab Tuma, um bairro da parte antiga da cidade, onde a vida continua tão agitada como sempre, apesar dos morteiros lançados de locais próximos como Yubar e Duma.

As lojas de Abu Rumane, repletas de marcas internacionais a preços inalcançáveis para grande parte da população, esbanjam luzes e cores em um país que praticamente perdeu suas principais fontes de energia: os poços de petróleo, que caíram nas mãos dos rebeldes e do Estado Islâmico.

No resto da cidade, os cortes de água e luz são constantes. Os geradores de energia se transformaram em parte da mobília urbana, assim como a presença de pessoas armadas que, em algumas partes, como no mercado de Al Hamidiye, são incontáveis.

Apesar de tudo, ao centro comercial de Damasco também chegaram as promoções de verão, anunciadas com grandes cartazes vermelhos nas vitrines das centenas de lojas.

O restaurante Abu al Abd não deixa de lado um de seus famosos pratos, “shawermas” de cordeiro e “keka”, vendidos a 90 liras (US$ 30). Um dos funcionários diz que o local fica aberto com frequência até às 2h da madrugada.

Muitas das cafeterias que abrem seus espaços até meia-noite não escondem sua simpatia pelo presidente Bashar al Assad. Várias exibem cartazes com a foto do líder sírio e uma mensagem de apoio “Sim, estamos contigo”.

Mas, antes de chegar ao centro, vindo pela rodovia do aeroporto internacional, onde só operam duas companhias aéreas sírias, é impossível não ver nos arredores de Aqraba ou Beit Sahem os estragos dos combates.

Já em Damasco, não se passa muito longe do castigado campo de refugiados palestino de Yarmouk. Nem do bairro de Midan, que nos primeiros atos do conflito se transformou em uma das regiões onde, a cada sexta-feira depois da oração de meio-dia, se organizavam protestos para pedir a queda do regime.

A capital está blindada e há barreiras militares por todas as partes, na entrada dos bairros, sobre as pontes, em cruzamentos e até mesmo em alguns semáforos.

Os edifícios oficiais estão rodeados, sem exceção, de blocos de concreto, alguns decorados com as cores da bandeira síria e com frases de apoio a Assad.

No trajeto do aeroporto ao centro é preciso mostrar documentos ao menos cinco vezes em postos onde há fotografias de Assad. Em alguns ônibus também há anúncios para que os jovens se alistem no exército.

O barulho dos impactos dos obuses lançados pelos rebeldes ou dos tiros de canhão de artilharia das forças armadas rompem a miragem da vida tranquila e descontraída em alguns bairros da capital.

Em um posto de controle na rua Bagdá, perto de Bab Tuma, os militares advertem que é melhor dar a volta porque esperam novos impactos de morteiros dos oposicionistas.

“De vez em quando os milicianos nos mandam bombas de presente”, ironizou um motorista que foi obrigado há dois anos a se refugiar no centro da capital como outros milhares de sírios. EFE

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