Paraguai quer ser centro de produção de baixo custo da indústria brasileira

  • Por Agencia EFE
  • 18/02/2014 19h02

César Muñoz Acebes.

Assunção, 18 fev (EFE).- O Paraguai pretende se transformar no centro de produção de baixo custo das indústrias, mas não mais dos Estados Unidos, e sim do Brasil, como se evidenciou nesta terça-feira no maior encontro empresarial dos países vizinhos em duas décadas.

Essa intenção foi divulgada por ocasião da visita a Assunção de uma delegação de 170 brasileiros, desde donos de pequenas companhias fronteiriças até diretores de gigantes como Odebrecht, OAS e Queiroz Galvão, assim como representantes de associações empresariais e sindicatos.

Buscam novos negócios, incentivados pela perda de competitividade de alguns setores brasileiros nos últimos anos, reconhecida abertamente por seus empresários no seminário que os reuniu hoje em um hotel da capital paraguaia.

Edson Campagnolo, o chefe da missão, que estimou que é a mais movimentada nos últimos 20 anos, apostou em um “novo modelo” de integração econômica regional, mas deixando de fora Venezuela, Bolívia e Argentina pela “intranquilidade” na hora de fazer negócios.

Nesse sentido, Eduardo Felippo, presidente da União Industrial Paraguaia, encorajou as empresas brasileiras a transferir seu país as linhas de produção mais caras, que usam alto nível de mão de obra e energia.

“Não estamos convidando a que fechem e se mudem para cá, mas a complementar-se” com a produção no Paraguai, disse.

O país conta com um regime de incentivos tributários para estimular a implantação de fábricas que fazem a parte manual de um processo de produção, inspirado no criado pelo México para atrair fábricas americanas após a entrada em vigor do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (NAFTA).

Uma das empresas que se enquadrou nessa modalidade é a multinacional japonesa Fujikura, que em dezembro de 2011 começou a produzir trancas para automóveis brasileiros em uma fábrica em Ciudad del Este.

A empresa optou por instalar-se no Paraguai e não no Brasil principalmente pela diferença de custos, disse à agência Efe Ignacio Ibarra, o presidente de suas operações na América do Sul.

Segundo Ibarra, embora a variação em salários seja pouca, os impostos, benefícios sociais e o seguro de saúde fazem com que um trabalhador no Brasil custe 96% mais à empresa que um no Paraguai.

Esse é um dos ingredientes do chamado “custo Brasil”, que encarece a produção em seu território e que faz com que alguns setores sejam incapazes de competir com as importações da China.

Implantar parte da cadeia de produção no Paraguai pode ser uma via para sobreviver, segundo Campagnolo.

“Não se trata de crescer no Paraguai tirando empresas do Brasil”, concordou o ministro de Indústria e Comércio paraguaio, Gustavo Leite.

Outro fator a favor do Paraguai é sua abundante energia, graças às turbinas das enormes hidrelétricas binacionais de Itaipu e Yacyretá.

Segundo cálculos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgados por Leite, no Paraguai a eletricidade é 63% mais barata que no Brasil.

Além disso, a maioria dos produtos elaborados no Paraguai pode entrar na União Europeia (UE) sem pagar tarifas, enquanto Bruxelas cancelou esse benefício aos que saem de fábricas do Brasil por considerar que esse país alcançou um nível médio de desenvolvimento.

No terreno das desvantagens do Paraguai estão seu baixo nível educativo, embora Leite tenha destacada que a mão-de-obra pode ser treinada, e sua infraestrutura deficiente, segundo reconheceu o próprio governo.

O ministro de Obras Públicas e Comunicações, Ramón Jiménez, anunciou hoje licitações no valor de US$ 7,5 bilhões nos próximos quatro anos para melhora de hidrovias, estradas, do aeroporto de Assunção, redes elétricas, águas e esgoto e saneamento.

Participar desses concursos é um atrativo para algumas companhias brasileiras presentes no ato.

O Brasil vendeu ao Paraguai bens no valor de US$ 2,997 bilhões em 2013, enquanto as importações somaram US$ 1,04 bilhão.

No país guarani há implantadas 32 empresas brasileiras, que no ano passado exportaram outra vez ao Brasil produtos por apenas US$ 208 milhões. O governo do Paraguai espera que, após esta visita, outras companhias sigam seu exemplo. EFE

cma/rsd