Parva Domus: a pequena república do Uruguai que quer fazer parte da ONU

  • Por Agencia EFE
  • 12/09/2014 15h04

Rubén Arranz.

Montevidéu, 12 set (EFE).- Parva Domus é uma nação fictícia fundada há 136 anos em Montevidéu como um local para desfrutar do lado mais amável da vida. Hoje conta com quase 200 membros e seu ministro de Culto, Jorge Milans, brinca que só entrarão na ONU se puderem ser do Conselho de Segurança.

Esta república independente fica encravada na região nobre de Montevidéu, dentro de uma grande casa ladeada por um jardim com cartazes com nomes de ruas, canhões e estátuas.

Quarta-feira à noite e sábados ao meio-dia, seus cidadãos se reúnem em torno de uma mesa e comem, bebem vinho, cantam, fazem teatro e conversam, mas nunca sobre política, religião ou esporte, destacou à Agência Efe o presidente, Bartolomé Grilo.

Por suas instalações passaram ao longo da história personagens como o escritor Rubén Darío, o músico italiano Arturo Toscanini e o militar e político italiano Giuseppe Garibaldi, que participaram de suas reuniões, conhecidas por seus membros como “tenidas”.

Esta associação recreativa e cultural foi fundada em 1878, dentro de uma área da cidade próxima a um antigo despejo e a um pesqueiro aonde iam seus primeiros cidadãos “em bonde de cavalos”, explicou o vice-presidente de Parva Domus, Rodolfo Mauri.

O objetivo era criar um espaço para debater livremente e “passar bons momentos entre amigos”, algo que se manteve até a atualidade, destacou.

Às portas de Parva Domus hoje se encontram duas pilhas que “contêm as águas do rio Lete”, aquele que na mitologia grega ficava no reino de Hades, e do qual todos que bebiam sua água se esqueciam de sua vida terrena.

Seus membros molham os dedos ao entrar para simbolicamente se esquecer das preocupações da vida real e submergir na atmosfera da associação, na qual o bom humor, a solidariedade, a amizade e a tolerância devem sempre sobressair, afirma seu presidente.

A Parva Domus conta com sua própria bandeira, seus estatutos, suas eleições, seu hino e inclusive até sua moeda fictícia, formada por notas como a de curiosos 499 pesos uruguaios.

Todos os anos, em 25 de agosto, seus cidadãos desfilam disfarçados pelas ruas da República Vizinha, como chamam o Uruguai, para celebrar sua independência e comemorar o aniversário da primeira vez que seu estandarte foi içado.

Atualmente, são cerca de 200 homens – as mulheres não podem se afiliar – que formam a Parva Domus, todos a convite de um dos membros e após a aprovação de seu órgão de governo, explicou Bartolomé Grillo.

O presidente é eleito uma vez a cada dois anos, embora o normal seja confiar no atual ocupante do cargo.

“A cada dois anos temos uma eleição que produz certa euforia, certo comichão infantil na cidadania, com a presunção de que vai alterar o status quo existente. Mas o presidente anterior governou por 50 anos e este já está há 10 ou 12”, lembrou Jorge Milans.

A Parva Domus tem seu próprio museu, que abriga uma grande variedade de objetos valiosos, desde figuras de porcelana até uniformes militares, armas históricas, fotografias centenárias e imagens de personalidades consideradas ilustres.

Entre suas reivindicações para o exterior, estão a de ter seu próprio espaço aéreo e de obter uma saída para o mar, embora Milans brinque que já a conseguiram “através das cloacas” uruguaias.

Seu espírito é, 136 anos após a fundação, o de um lugar de expansão para homens em que sobressaem “o sorriso, a música, a mesa bem servida, um bom copo de vinho e a melhor conversa”, elogiou Milans.

“Entramos, nos esquecemos daquele mundo e vivemos um pouco como criança e outro como adulto, mas com alegria. E que no final do dia sempre tenha a sensação de ter conquistado algo”, concluiu o vice-presidente. EFE

rag/cd/ma