Pessoas com deficiência contam com solidariedade para se locomover em Nairóbi

  • Por Agencia EFE
  • 31/08/2015 11h59

Jessica Martorell.

Nairóbi, 31 ago (EFE).- Deslocar-se por Nairóbi com o transporte público é um autêntico desafio para as pessoas com deficiência: veículos velhos e precários sem nenhum tipo de adaptação a suas necessidades e poucos motoristas dispostos a ajudar. Exceto por Josphat Mwangi, o único que oferece um serviço especial.

Mwangi faz há seis anos a mesma rota por Waiyaki Way – uma das vias mais movimentadas da capital queniana – com seu velho “matatu”, uma das populares caminhonetes de transporte público que oferecem preços muito econômicos.

Neste anos observou diariamente as dificuldades que enfrentam as pessoas que sofrem de algum tipo de deficiência física, até que um dia decidiu começar a romper barreiras. Agora seu “matatu” é o único na cidade que se adapta às necessidades deles.

Todas as tardes, o ensurdecedor barulho de seu motor adverte a todos que a jornada acabou nos escritórios do Conselho Nacional de Pessoas com Deficiência no Quênia (NCPDK) e que é hora de ir para casa.

Trizah Okudo é uma das muitas que saem de seu escritório com ajuda de muletas, mancando, enquanto cumprimenta entusiasmada Mwangi, que a espera ao lado da porta da caminhonete.

Após ajudá-la com as muletas e guardá-las na parte traseira do veículo, Mwangi a pega em seus braços e, com um pequeno impulso, a senta na parte dianteira, ao lado do assento do motorista.

“É uma pessoa excepcional. É amável e muito próximo”, contou Okudo à Agência Efe, que antes tinha que esperar muito tempo em pé no ponto de ônibus até chegar um “matatu” com espaço suficiente para acomodá-la.

“É incrível porque não nos cobra nenhum custo adicional por nos pegar na porta de nossos escritórios e nos levar para casa”, disse Okudo, agradecida.

Apesar dos elogios generalizados, Mwangi diminui a importância do que faz. “É só meu trabalho. Venho buscá-los e, aos que precisam de ajuda para subir, ajudo”, declarou à Efe.

Hellen Owuor, que trabalha na recepção da NCPDK, também caminha com dificuldade e precisa de ajuda para subir na caminhonete.

“Antes era um desafio e um sofrimento diário; agora ele vem nos buscar, e isso facilita muito nossa vida”, contou.

Embora não existam dúvidas sobre a generosidade de Mwangi, todos admitem que sua ajuda só é um remendo para o grande problema que a falta de transporte público habilitado representa.

“Em nossa vida normal, é muito difícil nos movimentarmos em Nairóbi, porque alguns de nós só podem utilizar transporte público como matatus ou ônibus, pois os táxis são caros demais”, relatou Owuor.

O presidente do NCPDK, David Ole Sankok, também lamentou que o sistema de transporte público não seja acessível, e reconheceu que é um assunto difícil de solucionar porque a gestão é privada.

“Os matatus tem capacidade para 14 pessoas, se sobe uma pessoa incapacitada, o espaço diminui e o motorista perde dinheiro. Esse é o problema”, apontou.

Segundo seus números, seis milhões de pessoas sofrem de algum tipo de deficiência no Quênia, onde o governo destina anualmente dois bilhões de xelins (cerca de R$ 67 milhões) para melhorar sua situação.

Embora nos últimos anos tenham alcançado alguns avanços, como a obrigatoriedade de acessibilidade nos novos edifícios, ainda há muito a fazer, já que, por exemplo, muitos prédios do governo continuam a ter barreiras intransponíveis para uma pessoa em cadeira de rodas.

Alheio a estas grandes números e após uma paciente espera de mais de meia hora para pegar a todos os que trabalham no NCPDK, o matatu de Mwangi já está cheio e pronto para continuar seu trajeto. Pouco a pouco desaparece entre o alvoroço e o grande engarrafamento cotidiano de Waiyaki Way. EFE

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