Pior desastre na história da mineração da Turquia cria tensão no país

  • Por Agencia EFE
  • 14/05/2014 17h15

Ilya U. Topper.

Istambul, 14 mai (EFE).- O pior desastre na história da mineração da Turquia, com um mínimo de 245 mortos, número que certamente aumentará, aprofundou a divisão da sociedade turca com uma sucessão de manifestações por todo o país e inclusive tentativas de agressão contra o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan.

Os familiares dos operários falecidos na mina de carvão de Soma, onde na terça-feira aconteceu a explosão, se lançaram contra o primeiro-ministro quando este visitou a cidade.

Erdogan teve que refugiar-se em um supermercado, enquanto seu seguranças tiravam a placa oficial de seu carro para evitar que se transformasse em alvo da multidão.

A raiva quase não contida das famílias dos mineiros contagiou dezenas de cidades no resto do país e foram registrados confrontos contra policiais tanto na capital, Ancara, como em Istambul e Esmirna.

Especialmente na própria Soma, a cidade da província ocidental de Manisa onde ocorreu o acidente, a atitude das autoridades inflamou os ânimos.

Vários dos maiores sindicatos do país convocaram uma greve geral para amanhã, quinta-feira, assim como manifestações de protesto em solidariedade aos mortos e contra as políticas econômicas do governo.

Já não resta esperança de achar sobreviventes, e tudo indica que o total de mortos superará os 300, dado que aos 245 confirmados é preciso somar os cerca de 100 mineiros ainda presos a uma distância de três a quatro quilômetros da boca do poço.

O governo dos Estados Unidos ofereceu hoje à Turquia sua colaboração para resgatar os mineiros que ficaram presos na mina. “Estamos preparados para ajudar o governo turco se for necessário”, declarou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, em sua entrevista coletiva diária.

O ministro da Energia turco, Taner Yildiz, detalhou que a alta concentração de monóxido de carbono no poço impede as equipes de resgate de avançar pela mina, transformada em uma armadilha que já matou alguns membros destas equipes.

Erdogan também não alimentou esperanças de encontrar sobreviventes, mas ressaltou que as autoridades estão se ocupando dos falecidos da melhor maneira.

“Faremos o possível no material e no espiritual. Rezam por eles nos cursos corânicos e serão recordados no sermão da sexta-feira”, declarou Erdogan, dirigente do partido islamita Justiça e Desenvolvimento (AKP).

O primeiro-ministro prometeu uma “investigação legal para esclarecer as circunstâncias” do ocorrido, mas se negou a apontar responsabilidades e descreveu o acidente como fortuito, comparando-o com desgraças ocorridas no passado.

“Vocês deveriam saber como funciona a mineração. Em 1862 morreram 262 pessoas em uma mina de carvão da Inglaterra, em 1866 foram 361, em 1894, outros 290… na China morreram 1.549 em 1942, no Japão, 458 em 1963, na Índia, 372 em 1975. Este tipo de acidente ocorre a todo o momento”, relatou Erdogan.

“Foi realizada uma inspeção da mina em março deste ano e não houve irregularidades. Trabalhar sem acidentes é impossível e esta mina é uma das melhores em relação a condições de segurança”, garantiu.

Os sindicatos, por outro lado, acreditam que a causa da tragédia é clara: as políticas de privatização e subcontratação, impulsionadas pelo governo do AKP desde sua chegada ao poder em 2002.

Cemalettin Sagtekin, membro do Colégio Oficial de Engenheiros e Arquitetos (TMMOB) denunciou na emissora “CNNTürk” as condições trabalhistas dos mineiros, que recebem salários de cerca de 1.200 liras turcas mensais, equivalentes a R$ 1.200.

“A causa das mortes é a ambição descontrolada dos patrões. Os engenheiros que devem fazer os controles regulares recebem seu salário da mesma empresa”, acusou Sagtekin.

“Isto não é um acidente. É um crime”, disse à imprensa Tayfun Görgün, presidente do sindicato mineiro Dev-Maden Sen.

“Não havia mortos quando estas minas pertenciam a TKI, a empresa estatal do carvão; as mortes começaram com a privatização. Não são acidentes, são assassinatos”, reforçou.

De fato, Alp Gürkan, proprietário da empresa mineradora Soma Holding, responsável do poço no qual aconteceu o acidente, tinha alardeado há dois anos para a redução dos custos de exploração, uma vez que se decidiu privatizar a mina em 2005.

“Antes, tirar uma tonelada de carvão tinha um custo de US$ 130, US$ 140, e agora nos comprometemos a fazer o mesmo por menos de US$ 25”, revelou Gürkan ao jornal “Hürriyet”.

A Turquia tem a pior taxa de segurança laboral da Europa, com uma média de três operários mortos por dia, e os acidentes na mineração são um problema crônico.

Um estudo da Universidade de Kirikkale mostra que o setor mineiro é o mais perigoso do país, na frente do metalúrgico e da construção.

Em média, morrem 80 operários ao ano em acidentes de mineração na Turquia, segundo o mesmo estudo, o que equivale a um em cada mil trabalhadores. EFE

dt-iut/rsd