Pobreza e falta de perspectiva fazem albaneses partirem rumo à Alemanha

  • Por Agencia EFE
  • 10/09/2015 07h18
Habitantes de Verdove

Fatime Lickollari junta o pouco que tem e arruma as malas para emigrar, junto de seus dois filhos e marido, à Alemanha na busca de uma vida melhor, uma viagem já feita por cerca de 30 mil albaneses neste ano.

A família Lickollari é de Verdove, uma cidade perto da turística Podradec, banhada pelo lago Ohrid, compartilhado por Albânia e Macedônia.

“Os que tinham algum dinheiro para pagar a viagem já foram embora. Aqui ficaram os mais pobres”, disse à Agência Efe Fatime, que com um pequeno crédito do banco conseguiu montar um modesto negócio de frutas e verduras no centro de Verdove.

“Vê essa caixa de uva podre? Está há uma semana aqui. Ninguém veio comprá-la porque o preço de 80 centavos o quilo parece caro demais. Não posso trabalhar para manter os pobres”, lamentou, em referência aos muitos clientes que não tem como pagar e aos quais não resta outra opção que não comprar fiado.

O camponês Zyber Afisllari, chefe de uma família que sobrevive com 100 euros ao mês, confessa, entre lágrimas, que cortaram a luz de sua casa por não pagar os 3.200 euros em dívidas com a companhia elétrica estatal.

A vida é dura nesta cidade de quase mil habitantes, já que para ter água potável é preciso caminhar entre duas e três horas até chegar a um manancial na montanha.

A maior parte dos moradores desceu das zonas montanhosas e frias de Mokrra para se estabelecer em Verdove com a esperança de encontrar trabalho no setor da construção civil em Pogradec ou na vizinha Grécia.

No entanto, a crise fez com que muitos tenham ficado desempregados e sem nenhuma renda para manter suas famílias, o que os levou a emigrar rumo aos países mais ricos da Europa, como Alemanha, Suécia, Noruega e Dinamarca, onde sonham em dar uma vida melhor aos filhos.

“Voltei da Grécia há cinco anos com a ideia de que a Albânia tinha mudado. Mas nada. Aqui não há perspectiva. O ensino e a saúde não funcionam. Não há justiça, e os políticos são corruptos”, criticou Bledar, que só quis dar seu primeiro nome, um dos albaneses que já emigrou duas vezes em busca de melhores condições.

Ele acaba de voltar da Finlândia depois que as autoridades do país rejeitaram sua solicitação de asilo.

“Todos queremos vender casas, terras, vacas e fugir, mas temos medo do que pode ocorrer se formos devolvidos (aos nossos países), declarou Vane, de 40 anos, em entrevista à Efe.

Segundo dados do governo alemão, 29.353 albaneses solicitaram asilo na Alemanha nos sete primeiros meses do ano em comparação com 4.590 solicitações registradas no mesmo período de 2014 e a inexistência de requisições do tipo em 2012 e 2013.

O número cresceu até chegar ao número recorde de 7.633 pedidos somente em julho, o que coloca os albaneses como o segundo povo no ranking de solicitações de asilo, atrás apenas dos sírios.

A possibilidade de obter asilo político é praticamente nula, já que o país, após atravessar uma longa era no comunismo, vive hoje em um sistema democrático e é candidato a ingressar na União Europeia (UE).

A embaixada alemã em Tirana, capital da Albânia, divulgou um calendário no qual cerca de 700 albaneses serão deportados ao país ainda neste mês.

Para frear a onda de emigração, a maior desde a queda do comunismo há 25 anos, o governo albanês reforçou os controles na fronteira com um maior número de policiais.

Além disso, as autoridades do país pediram à Alemanha que declare a Albânia como “país de origem segura”, o que permite que os trâmites e a deportação sejam mais rápidos.

O primeiro-ministro, Edi Rama, pediu ajuda da UE para que os países balcânicos possam acompanhar as reformas que devem adotar para desenvolver suas frágeis economias.

A taxa oficial de desemprego na Albânia é de 17%, e a ajuda econômica para 74 mil famílias necessitadas – 6,4% do total – não supera os 50 euros.

Mimoza Dhima/EFE