Polícia prende 11 pessoas por linchamento de afegã acusada de queimar o Corão

  • Por Agencia EFE
  • 21/03/2015 16h53

Cabul, 21 mar (EFE).- Pelo menos 11 pessoas foram detidas por suspeita de envolvimento no linchamento de uma jovem com problemas mentais em Cabul, a capital do Afeganistão, que foi acusada de queimar o Corão, o livro sagrado do Islã, informou neste sábado à Agência Efe uma fonte policial.

A mulher, chamada Farkhonda, de 27 anos, morreu depois que foi brutalmente agredida na sexta-feira por um grupo de pessoas.

“Detivemos até agora 11 pessoas, entre eles vigias do santuário e escritores de talismãs. Acredita-se que eles foram responsáveis por confundir centenas de transeuntes”, disse o chefe do departamento de investigação criminal da polícia de Cabul, Farid Afzali.

A polícia não encontrou provas de que a jovem havia queimado uma cópia do livro sagrado muçulmano, por isso “foi um mal-entendido das pessoas e só encontramos alguns pedaços de papel queimados em um forno metálico”, afirmou Afzali.

A família da vítima garantiu para a polícia que a mulher já foi uma especialista na religião e completou vários graus de estudos, mas sofria de transtornos psicológicos há 16 anos.

Os vídeos divulgados nas redes sociais mostram uma multidão, em sua maioria homens jovens, agredindo a mulher com pedaços de pau, pedras e golpes. Em seguida, o grupo aprece ateando fogo a seu corpo para depois jogá-lo no rio Cabul.

O crime ocorreu em uma área movimentada da cidade dentro do santuário de Shah-Do-Shamshira, aonde muitas mulheres vão para rezar e comprar amuletos dos escritores de talismãs.

Organizações civis condenaram o linchamento, do qual foram divulgadas muitas imagens e vídeos nas redes sociais. Nas imagens, a vítima garantiu que não havia queimado o Corão, mas apenas “papéis sem uso, que estavam jogados”.

“Ela foi enviada pelos americanos, que vergonha, está queimando o Corão”, gritavam algumas pessoas nos vídeos, que foram utilizados pela polícia para efetuar as detenções.

“A surra durou cerca de 45 minutos, foi presenciada por policiais e aconteceu a apenas um quilômetro de distância do Ministério do Interior e de vários edifícios das forças de segurança, mas ninguém prestou socorro”, declarou à Efe o ativista de direitos sociais Abdul Wadoud Pedram.

Vários grupos foram criados no Facebook para exigir uma investigação por parte do governo, com o slogan “Justiça para Farkhonda”.

Afzali declarou que os policiais presentes fizeram o possível, mas foram incapazes de evitar o linchamento, pois havia “milhares” de pessoas.

O presidente afegão, Ashraf Gani, ordenou ontem uma investigação completa do incidente. Gani afirmou em comunicado que o incidente foi um ato de “extrema violência” e advertiu que “fazer julgamentos pessoais está em clara contradição com a Justiça islâmica”.

A conservadora sociedade afegã é muito sensível aos casos de blasfêmia e profanação do Corão.

Pelo menos quatro civis morreram e cinco ficaram feridos em 2013 depois que homens não identificados abriram fogo durante um protesto contra um policial que profanou um Corão no sul do país.

Em fevereiro de 2012, a suposta queima de exemplares do Corão na prisão de Bagram, perto de Cabul, suscitou uma onda de violência em diferentes pontos do país na qual morreram mais de 30 pessoas. EFE