Na mira do Congresso, Ernesto Araújo insinua que pressão por saída se deve à tecnologia 5G

No Twitter, chanceler afirmou que senadora Kátia Abreu (PP-TO) teria pedido ‘um gesto’ em favor da tecnologia; parlamentares saíram em defesa da colega de Casa e pediram a demissão do ministro

  • Por André Siqueira
  • 28/03/2021 20h06 - Atualizado em 28/03/2021 20h18
MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO - 02/03/2021Pressionado por parlamentares, Ernesto Araújo contra-atacou na noite deste domingo, 28

Na mira do Congresso, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, utilizou as redes sociais, neste domingo, 29, para insinuar que a pressão feita pelos parlamentares por sua saída estaria relacionada aos interesses de senadores na licitação da tecnologia 5G, que deve ocorrer neste ano. Em um série de dois tuítes, o chanceler relatou uma reunião com a senadora Kátia Abreu (PP-TO), atual presidente da Comissão de Relações Exteriores (CRE) da Casa, na qual ela teria pedido um “gesto em relação ao 5G”. “Em 4/3 recebi a Senadora Kátia Abreu para almoçar no MRE. Conversa cortês. Pouco ou nada falou de vacinas. No final, à mesa, disse: “Ministro, se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será o rei do Senado.” Não fiz gesto algum. Desconsiderei a sugestão inclusive porque o tema 5G depende do Ministério das Comunicações e do próprio Presidente da República, a quem compete a decisão última na matéria”, diz a publicação.

Com a declaração de Ernesto, apoiadores do chanceler e do presidente Jair Bolsonaro passaram a atacar Kátia Abreu e outros membros do Centrão, que integram a base de apoio do governo federal no Legislativo, nas redes sociais, acusados de fazerem lobby a favor da big tech chinesa Huawey – o nome da empresa, inclusive, está nos trending topics do Twitter. “Senadores e Deputados devem ganhar muito dinheiro fazendo lobby da Huawei. Lembrando que aqui não é os EUA onde o lobby é permitido. Aqui é crime”, diz uma postagem feita pelo perfil Base Conservadora.

Diante da repercussão, a senadora Kátia Abreu emitiu uma nota à imprensa na noite deste domingo, na qual afirma que o chanceler, a quem chamou de “marginal”, resumiu “três horas de um encontro institucional a um tuíte que falta com a verdade” e faz coro por sua demissão. “O Brasil não pode mais continuar tendo, perante o mundo, a face de um marginal. Alguém que insiste em viver à margem da boa diplomacia, à margem da verdade dos fatos, à margem do equilíbrio e à margem do equilíbrio e à margem do respeito às instituições. Alguém que agride gratuitamente e desnecessariamente a Comissão de Relações Exteriores e o Senado Federal”, diz o texto.

Presidente nacional do PP e aliado de Bolsonaro, o senador Ciro Nogueira, crítico contumaz da gestão de Araújo, também se manifestou em seu perfil no Twitter. “No momento em que há um grande esforço para a pacificação e o entendimento, lamento muito que justamente o responsável por nossa diplomacia venha a criar mais um contencioso político para as instituições. O Brasil e o povo brasileiro não merecem isso”, escreveu Nogueira. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) afirmou que “ao plantar insinuações contra a senadora Kátia Abreu, o Ministro Ernesto Araujo atinge todo o Senado e lança sementes de joio nos campos da democracia. Quando menos a gente espera a democracia se vê sufocada. Não adianta somente podá-lo, porque a poda vai fortalecer a planta. Desse joio é preciso arrancar as raízes, fertilizar as mudas democráticas e “forjar na democracia o milagre do pão”. Ernesto e democracia não andam juntos. Não há opção. Democracia fica. Ernesto tem de sair”. Senadora pelo PSL, partido pelo qual Bolsonaro foi eleito em 2018, questionou “até quando os extremistas vão atrapalhar o governo?”. “Para se governar um país democrático é necessário diplomacia, porque há questões de interdependência entre os poderes. Quando se coloca o ego acima da nação fica difícil. A base quer ajudar, mas a cada dia a dificuldade aumenta. Falta juízo!”, afirmou nas redes sociais.

Como a Jovem Pan mostrou, no Congresso, prevalece a leitura de que a postura ideológica do chanceler inviabilizou a interlocução do governo brasileiro com os Estados Unidos, China, Rússia e Índia, países que poderiam fornecer vacinas contra a Covid-19 para o Brasil. Na última semana, integrantes do Centrão subiram o tom contra o chanceler brasileiro e passaram a exigir a sua demissão. “Ou sai a ala ideológica ou a guerra está declarada”, disse o deputado Fausto Pinato (PP-SP), correligionário de Lira, em entrevista à Jovem Pan. A rejeição ao chefe do Itamaraty, no entanto, não se restringe à base aliada do governo Bolsonaro.

Na quarta-feira, 24, em uma audiência no Senado, Araújo foi criticado por parlamentares de diversos partidos, que pediram a sua renúncia. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) apontou que a saída do ministro solucionaria uma crise. “O senhor não tem mais condições de ficar no Ministério das Relações Exteriores. E não é para criar uma crise, é para solucionar”, afirmou.  “O senhor ouviu o presidente dizer que era uma gripezinha. Faça um bem para o país e saia do Ministério das Relações Exteriores”, disse Jorge Kajuru (Cidadania-GO). “Faço um desafio a Vossa Excelência, que acha que não atrapalha o Brasil nesse momento de pandemia: peça exoneração por 30 dias. Vamos ver se, com esse gesto, não conseguimos mais rapidamente as vacinas”, pontuou a senadora Simone Tebet (MDB-MS). Na tarde da quinta-feira, 25, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou, em coletiva de imprensa, que o Brasil precisa de ‘representatividade externa melhor’