Quem é Arthur Lira, novo presidente da Câmara dos Deputados

Apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro, Lira é tido como ‘pragmático’ e ‘cumpridor de acordos’ nos corredores de Brasília

  • Por André Siqueira
  • 02/02/2021 01h05 - Atualizado em 02/02/2021 01h12
Luis Macedo/Câmara dos DeputadosNa avaliação de um ministro do governo, Lira se contrapôs a Maia a ponto de se tornar um candidato 'imbatível' para o comando da Câmara

Arthur Lira (PP-AL) foi eleito, na noite desta segunda-feira, 1º, o novo presidente da Câmara dos Deputados, após quatro anos e sete meses de gestão de Rodrigo Maia (DEM-RJ). O líder do PP ocupará a cadeira mais importante da Casa pelos próximos dois anos, após vencer Baleia Rossi (MDB-SP) por 302 votos a 145. Advogado de formação, agropecuarista e empresário, Lira está em seu terceiro mandato como deputado federal. Ele começou sua carreira na política em 1992, quando foi eleito vereador em Maceió, capital do estado de Alagoas. Reeleito para um segundo mandato na Câmara Municipal, também exerceu outros três como deputado estadual.

Desde o início da campanha, Arthur Lira recebeu o apoio do governo do presidente Jair Bolsonaro. A proximidade com o Palácio do Planalto fez adversários de Lira questionarem a independência da Câmara. Partidos de esquerda enxergam no deputado do PP um obstáculo para a tramitação de eventual processo de impeachment. Nos últimos dias de sua gestão, Rodrigo Maia chegou a dizer que Bolsonaro tinha a intenção de transformar a Casa em um “anexo” do Planalto. O deputado, no entanto, faz questão de ressaltar que não será subserviente ao Executivo. Para ilustrar como é a atuação de Lira em Brasília, a Jovem Pan ouviu integrantes do governo e parlamentares de diversos partidos políticos que convivem quase diariamente com o expoente do Centrão.

“Os partidos do centro, ou do Centrão, como queiram, do qual nós fazemos parte, sempre deram a qualquer governo, com muito equilíbrio, o sustentáculo, as aprovações necessárias”, disse Arthur Lira em um discurso na Câmara, em maio de 2020. À época, Bolsonaro iniciava seu casamento com os partidos do Centrão e o então líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), balançava no cargo. O cenário alçou Lira à condição de “líder informal” do governo federal, como define um correligionário de Lira.

Entre aliados, opositores e governistas, alguns predicados são utilizados para descrever o perfil do novo presidente da Câmara: pragmático, cumpridor de acordos e “trator do bem”. “Lira tratora tudo na força do voto”, resume um líder partidário. A avaliação diz respeito à influência do deputado do PP nos corredores de Brasília. Parlamentares ouvidos pela reportagem também comparam Lira a Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, que ganhou projeção por comandar o Centrão e foi preso, em 2016, acusado de receber propina de contrato de exploração de petróleo no Benin, na África, e de usar contas na Suíça para lavar o dinheiro. Para derrotar Baleia Rossi, Lira aglutinou 11 partidos e ainda conquistou votos em partidos que se colocavam ao lado do emedebista. Este cenário ajuda a explicar porque sua candidatura ultrapassou a barreira dos 300 votos.

Dentro do governo, há uma explicação na escolha por Lira: diante da necessidade de aprovar reformas e fazer andar uma agenda que impulsionou a candidatura de Bolsonaro em 2018, o Palácio do Planalto precisava de um antagonista a Rodrigo Maia. Ao longo de 2020, o grupo de Lira obstruiu uma série de sessões, com o intuito de forçar acordos benéficos ao governo. “Foi escolhido um hábil articulador, que tem capacidade de juntar partidos e, ao mesmo tempo, se contrapor ao Maia. Ele foi ganhando musculatura até se tornar um nome quase imbatível para a eleição da Câmara”, afirmou à Jovem Pan um ministro do governo Bolsonaro.

Eleito para um dos cargos mais importantes da República, Arthur Lira responde a dois processos no Supremo Tribunal Federal (STF). Em um deles, por corrupção passiva, o deputado é acusado de receber 106 mil reais em propina. O valor foi apreendido no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com um assessor parlamentar, que tentava embarcar para Brasília com o valor escondido nas roupas. No outro inquérito, conhecido como “quadrilhão do PP”, é acusado de participar de desvios na Petrobras – a denúncia foi aceita pelo STF em junho de 2019. Por ser réu no Supremo, Lira fica impedido de assumir a Presidência da República em caso de ausência simultânea (viagem internacional ou problema de saúde) do presidente Jair Bolsonaro e do vice-presidente, general Hamilton Mourão.O deputado afirma que todos os processos da Operação Lava Jato que vieram a julgamento foram arquivados.