Presidente da Samarco não assume que plano de salvamento após rompimento de barragem falhou

  • Por Jovem Pan
  • 26/12/2015 14h11

"A empresa não tem intenção de voltar a operar na barragem de Fundão"Ricardo Vescovi

O diretor-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, 45 anos, 23 anos de empresa, deu uma entrevista exclusiva à Folha de S. Paulo deste sábado (26) falando sobre as ações da empresa que controlava a barragem de Fundão, em Mariana (MG), que rompeu em 5 de novembro, no maior desastre ambiental da história do Brasil.

Além das consequências à fauna e flora das cidades atingidas pela lama e as que margeiam o Rio Doce, chegando ao oceano, ao menos 17 pessoas morreram soterradas (outras duas estão desaparecidas).

Apesar da longa entrevista, Vescovi foi vago quanto às causas do rompimento da barragem ocorrido há mais de sete semanas e diz esperar o resultado das “investigações”. Ele, mesmo assim, especulou e respondeu sobre possíveis elementos que podem ter impulsionado a tragédia. Veja abaixo os principais temas da entrevista realizada por Estêvão Bertoni e Marcelo Leite, da Folha de S. Paulo:

Reparo aos moradores

O presidente da Samarco garante que 95% das famílias de Mariana estão em casas alugadas. Ele diz que a empresa distribui cartão para as vítimas fazerem compras no comércio local, com o valor de um salário mínimo por família mais 20% por dependente. Vescovi afirma promover ainda um programas de geração de empregos para as vítimas de Mariana, que perderam suas casas.

Também, estão sendo cadastradas pessoas que tinham sua renda relacionada aos rios destruídos pela lama, afirmou. A empresa diz que trabalha na construção da nova vila de Bento Rodrigues “e, eventualmente, de Gesteira”.

Moradores hospedados em hotel na cidade de Mariana logo após rompimento de duas barragens, em 10 de novembro (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Ele disse também que as pessoas desabrigadas querem continuar morando juntas, como comunidade.

Danos ambientais – “Tem peixe no rio”

Vescovi afirmou que foi contratada uma empresa internacional que está fazendo o diagnóstico de custos e prazos de reparação para cada parte afetada das margens do Rio Doce, tanto ambiental quanto social. O presidente espera que o laudo esteja tratado já na primeira quinzena de janeiro.

O empresário garantiu também que “tem peixe no rio, tem vida no rio”. A afirmação decorre de monitoramento com barcos e sonar que a empresa garante que faz desde “lá da foz do rio Doce para cima”. “Nós estamos subindo o rio do mar para frente, em todos os lugares, nós estamos quase em Barra Longa, e em todas as regiões nós detectamos a presença de peixes”.

Peixes mortos no Rio Doce em Baixo Guandu (Folhapress)

Vescovi negou a presença de metais pesados na lama. “Lama da Samarco é considerada não tóxica e inerte”, garantiu.

Mas disse também, sobre laudos de agências que apontaram a existência de tais compostos: “de todos esses laudos que estão publicados, os níveis de metais estão todos dentro do limite aceito”.

Ele assumiu a possibilidade de vazamento de mais lama em situações de muita chuva. Estão sendo construídos diques para evitar que sólidos dentro da barragem de Fundão sejam carregados para os rios pelas fortes chuvas, afirmou.

Causas

O presidente disse que ainda não chegou nas causas do rompimento da barragem. Ele afirmou que a empresa contratou um escritório com “técnicos nacionais e internacionais”, mas que as investigações internas da própria Samarco podem ser concluídas apenas de seis meses a um ano, segundo sua inferência. A Polícia Civil também investiga em paralelo.

Vescovi diz que não está satisfeito, mas não assume que o plano de salvamento para os moradores falhou. Ele disse que a questão do aviso à população, que pode ter contado com telefonemas a residentes locais, será esclarecida apenas na investigação. “No momento, nosso foco está na ajuda humanitária, no meio ambiente”, desconversa.

Planos de emergência funcionaram?

O presidente da Samarco ainda nega erros processuais, de licenciamento e de vistoria de segurança da empresa, enquanto as investigações não estiverem concluídas.

“Contratamos as melhores empresas para fazer o plano de emergência, entregamos esses planos para as autoridades conforme manda a lei. E os executamos conforme estava descrito”, disse.

Moacyr Lopes Júnior/Folhapress

Quando foi oferecido um plano alternativo pela empresa RTI em 2009 (com monitoramento por telemetria, simulações com moradores, e um centro de telecomunicações), a Samarco recusou alegando que já havia um plano de emergência estabelecido.

Lama da Vale?

Vescovi considera “Muito improvável” que a pilha de rejeitos próxima, da Vale, possa ter contribuído para a instabilização do reservatório. A Vale (uma das controladoras da Samarco, junto com a BHP) depositava 5% dos rejeitos em Fundão, conforme prvisto em contrato.

Integração

Ele negou ainda a informação de que as barragens vizinhas de Germano e Fundão estavam em processo de unificação. Ele explica que Fundão e Germano seriam colocadas na mesma altura (940 metros). “São duas estruturas que estão ali, próximas uma da outra, mas não chamo isso de uma unificação. Chamo isso de alteamento”.

Busca de lucro?

“Em hipótese nenhuma” a busca pelo alto lucro comprometeu o investimento em segurança, garantiu o presidente da Samarco. Ele justifica a alta margem de lucro (de 37%) e baixo custo da tonelada de pelota produzida por aplicação e desenvolvimento de tecnologia. “Nunca restringimos dinheiro para a segurança, seja a segurança de pessoas seja a segurança das nossas estruturas”, afirmou.

O jornal informa que a Samarco aumentou a produção de rejeitos em 32% em 2014. “Estávamos no processo de aumento de produção planejado”, em uma curva planejada por três anos e executada por três anos, justifica.

Futuras operações da empresa

Vescovi garantiu que foram estabelecidos, junto à Defesa Civil, “novos procedimentos de monitoramento das estruturas remanescentes e de aviso à população” no que chamou de “aprendizado” após a tragédia.

“A empresa não tem intenção de voltar a operar na barragem de Fundão”, afirmou também. “Não é a nossa intenção voltar a construir uma barragem naquele local, até por tudo o que é esse acidente representou e representa para gente na própria empresa”.

(EFE)

Há dinheiro necessário para multa e reparações?

Questionado se a empresa possui recursos para bancar o fundo de R$ 20 bilhões exigidos pela União, ele destacou a “reputação de 38 anos” da Samarco e garantiu que “tem ativos”. “Em tese a empresa suporta”, afirmou.

Ele disse também, entretanto, depender do tempo em que os R$ 20 bilhões exigidos por ação civil do governo federal terão de ser desembolsados pela companhia.

Vescovi não conta com o fechamento da empresa pelo peso das exigências impostas, mas não descartou essa possibilidade. “Eu conto com a possibilidade da Samarco dar conta disso tudo”.

Maior desafio

O presidente da Samarco disse à Folha ainda que esse “é o maior desafio da minha carreira, sim, estou aqui liderando todo dia em jornadas de sete dias da semana. Não tem interrupção”, garantiu na entrevista em que seus olhos marejaram duas vezes.