Quem são os “aliados” da luta contra a mudança climática no Peru

  • Por Agencia EFE
  • 23/12/2014 10h28

Caty Arévalo.

Tarapoto (Peru), 23 dez (EFE).- Mal começou a época de chuvas na Amazônia peruana e, enquanto os líderes mundiais discutem sobre o acordo global de luta contra a mudança climática que deve ser adotado em um ano, a água corre com uma força destruidora pelas veias hídricas do pulmão do planeta.

Com o encerramento da Cúpula de Mudança Climática de Lima (COP20) e a adoção de um documento que não garante o acordo na próxima COP de Paris, a Agência Efe viajou para uma das regiões mais sensíveis ao aquecimento, no terceiro país mais afetado por suas consequências, o Peru.

A cordilheira Escalera, no noroeste da Amazônia andina peruana, é a esponja de água doce da região de San Martín e de grande parte da população de um país que habita uma costa desértica.

E o aspecto que apresenta em meados de dezembro coincide com o que famosos cientistas – como Emanuel Gloor, da Universidade de Leeds – descreviam em artigo publicado na “Nature” em fevereiro: antecipação da temporada de chuvas, cataratas carregadas de água enchendo riachos que inundam caminhos e campos, e barro por todas as partes.

Os modelos preveem um aumento de temperatura de mais de dois graus em 2050 nesta região do planeta, onde seus habitantes já testemunham menos precipitações nos meses secos que se traduzem em seca, e chuvas “mais intensas e desordenadas” de janeiro a março.

“Nunca tínhamos visto a água correr com tanta força no começo de dezembro”, afirmou à Efe Manuel Bernárdez, um camponês de 70 anos que vive nessa área.

A equação complica quando se leva em conta que San Martín é a região mais afetada pelo desmatamento no Peru, com cerca de 27 mil hectares a menos de floresta a cada ano, devido à mudança de uso do solo, o segundo fator mais agravante da mudança climática na América Latina, após a fumaça dos carros e da indústria.

Mas San Martín ruma para se transformar também em modelo de como Governo, conservacionistas, setor privado e comunidades indígenas unem forças para gerenciar algo fundamental: a gestão da água.

Juntos, eles elaboraram “um mecanismo de pagamento por serviços ambientais”, de modo que os consumidores de água paguem para quem contribui para sua conservação: as comunidades indígenas que habitam as partes altas da bacia, explicou Luis Dávalos, antropólogo da organização The Nature Conservancy (TNC) e um dos cérebros do projeto.

Assim, se em uma das maiores cidades da região, Tarapoto, há 34 mil famílias que pagam conta de água, um sol (R$ 0,90) de cada fatura será destinado à conservação da bacia por parte das comunidades, somando 34 mil sóis anuais, aos quais serão acrescentadas contribuições do setor privado (agricultores, sobretudo do cultivo de arroz, e profissionais do turismo).

O dinheiro será administrado pelo recém-criado Comitê de Gestão da Cuenca do Cumbaza, disse Martha del Castillo, diretora do Centro de Desenvolvimento e Pesquisa da Selva Alta (Cedisa).

Conservar a água é algo fundamental para a preservação da floresta, por isso o Governo incluiu esta região em seu Programa Nacional de Conservação para diminuir a Mudança Climática, que pretende proteger 54 milhões de hectares de floresta – das 73 milhões que o Peru possui – até 2020.

“Já assinamos acordos com seis comunidades nativas, por cada hectare de floresta que conservam receberão 10 sóis por ano, de modo que uma que tenha 4 mil hectares receberá 40 mil sóis durante os próximos cinco anos”, explicou Karla Mendoza, coordenadora do programa em San Martín.

O pagamento para preservar a água não expira, mas o de manejo florestal sim, “porque a ideia é que essa ajuda acompanhe um processo de capacitação dessas comunidades”, declarou Dávalos.

É o que TNC e CEDISA chamam de “Plano de Vida”: parte de um roteiro de 50 anos para que a conservação se transforme na chave do desenvolvimento sustentável das comunidades nativas.

Para entender o que isso significa, a Efe foi a uma delas, a dos quíchuas de Chiriyaco, onde tudo, até falar com um jornalista, requer o consentimento de todos os membros de suas 180 famílias: crianças, homens, mulheres e idosos.

Uma vez aprovado, o “Apu” (chefe da tribo), cujo nome é Segundo Amasifuen, relatou à Efe o que vão fazer para preservar os 8.030 hectares de floresta de sua titularidade: apicultura, recuperação de sementes autóctones (machinga, michucsi, ou dale dale), reflorestamentos e cultivos próprios do ecossistema andino, como certos cítricos e cacau.

Segundo Amasifuen, assim chamado pela ordem que ocupa entre seus irmãos (o nome do mais jovem é Oitavo), insiste que as crianças escutem as explicações. “Abraçamos a possibilidade de poder conservar nossos recursos e desenvolver nosso plano de vida pensando neles, como um dia nossos avós pensaram em nós”. EFE

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