Radicais iranianos fazem “patrulhas da castidade” para controlar as mulheres

  • Por EFE
  • 22/09/2014 07h34

Teerã, 22 set (EFE).- As “patrulhas da castidade”, criadas por um grupo paramilitar iraniano para obrigar que as mulheres saiam “bem cobertas”, são o último gesto dos setores mais radicais para combater o que consideram uma “fraqueza” do governo do moderado Hassan Rohani.

Desde o início do verão, quando as iranianas mais modernas se permitiram um tímido “destape” (véus mais transparentes e leves e mangas ligeiramente curtas – mas sempre abaixo do cotovelo) para enfrentar o calor, há manifestações dos conservadores para exigir a imposição do uso do “bom hijab”, ajustado à estrita interpretação do código islâmico.

Mas o grupo Ansar-e Hezbollah foi ainda mais longe e organizou patrulhas populares em Teerã para controlar a moralidade das mulheres, especialmente das jovens, que são mais relapsas ao cumprimento da lei que determina o uso do hiyab como obrigatório e exige que todas as partes do corpo feminino, com exceção do rosto, pés e mãos, estejam cobertas.

O objetivo do grupo paramilitar, que conta com apoio do líder supremo aiatolá Ali Khamenei, é percorrer as ruas para “advertir” e intimidar àquelas mulheres que, de acordo com eles, violarem as normas de “decência” exigidas na República Islâmica.

Segundo declarou recentemente o secretário-geral do Ansar-e Hezbollah, Abdolhamid Mohtasham, é necessário “achatar àqueles que promovem a corrupção”, já que “se sentem a vontade, graças ao clima de tolerância do governo” que provocou “um errado desequilíbrio” na sociedade, na qual “o peso dos corruptos mudou em detrimento dos religiosos”.

“A operação em Teerã será extensiva e o volume destas operações será grande”, disse, orgulhoso, Mohtasham, que também anunciou que a iniciativa se estenderá ao resto do país.

Esta radical medida surge pouco depois que o presidente Rohani, que ganhou as eleições após prometer maiores liberdades sociais, assinalou em discurso que não é possível impor ao povo um comportamento social.

“É possível melhorar a cultura com caminhonetes, micro-ônibus, polícia e soldados?”, se perguntou, em referência às caminhonetes da polícia moral que patrulha a cidade com um objetivo similar e que, segundo os mais radicais, não é suficientemente dura nem efetiva.

“Isto é uma ditadura religiosa”, se queixou à Efe Saide, moradora de Teerã de 29 anos, que usa o véu, como fazem muitas jovens, deixando à mostra boa parte de seu cabelo.

Sua companheira de estudos Sharshané, de 26 anos, acredita que “com este ato só demonstram que não respeitam as pessoas. Cada um deveria poder se vestir como quiser”, um pensamento que prolifera em um país cuja população é majoritariamente jovem.

Fátima, que trabalha em uma empresa de turismo, lembra que “em outros países, como por exemplo na Turquia, há mulheres que saem cobertas e outras não, mas as cobertas não olham mal as que não o estão, as respeitam, não como aqui, que nos olham com ódio, só porque usamos maquiagem ou as unhas pintadas”.

“Em teoria, na rua não se pode ver os cabelos. No entanto todas os mostramos (com os véus ligeiramente caídos para trás), mas isso significa que podem nos deter a qualquer momento. Caminhamos sempre com medo”, comentou.

A presença de mais radicais nas ruas que não respondem à nenhuma autoridade oficial não fará mais do que complicar a situação para as que entendem o conceito de hijab de uma forma mais branda, de acordo com suas crenças.

O ministro do Interior, Abdolreza Rahmaní-Fazlí, reagiu esta semana ao anúncio e advertiu que responderá como corresponda a estas patrulhas não autorizadas, que necessitam de uma autorização oficial para funcionar, com a qual não contam.

“O Ministério do Interior é o responsável por assegurar-se dessa questão e terá uma resposta apropriada perante estas medidas”, disse o ministro, perante o último exemplo de queda de braço que radicais e moderados travam para modificar ou manter as asfixiantes regras sociais vigentes no Irã. EFE