Referendo da Escócia cria marco internacional e muda a política britânica

  • Por Agencia EFE
  • 15/12/2014 19h29

Judith Mora.

Londres, 15 dez (EFE).- O histórico referendo da Escócia, realizado no dia 18 de setembro, criou um marco internacional e pôs em xeque a classe política britânica, que teve que ceder mais autonomia aos escoceses para impedir a vitória da independência.

A consulta popular, acompanhada com grande expectativa no mundo todo e na qual votaram pela primeira vez jovens maiores de 16 anos, terminou com o triunfo do “não” por 55%, contra 45% do “sim”, o que representou um duro revés para os independentistas após dois anos de intensa campanha.

A inédita consulta criou um precedente dentro e fora da Europa, pela grande mobilização social e o tom civilizado de um processo que culminou com uma participação nas urnas de quase 85%.

No dia 19 de setembro, ao saber da derrota, anunciou sua renúncia Alex Salmond, então líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP) e ministro principal do governo autônomo, o artífice do referendo.

O líder independentista, cujo partido governa em maioria na Escócia desde 2011, foi quem assinou em 15 de outubro de 2012 com o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, o acordo de Edimburgo, que fixou as bases do referendo e deu ao parlamento escocês competências para regulá-lo.

Com a independência se teria posto um fim no pacto entre Escócia e Inglaterra selado com a ata da União de 1707, que unia os parlamentos de ambas nações no que eventualmente seria o Reino Unido.

Ao anunciar sua retirada, Salmond, que mantém sua cadeira no parlamento, passou a liderança do SNP e do Executivo para “sua número dois” durante uma década, Nicola Sturgeon, que em 20 de novembro se transformou na primeira mulher a governar a Escócia.

Sturgeon, que não renunciou ao sonho da independência, enfrenta o desafio agora de negociar a ampliação da autonomia, depois que uma comissão oficial tenha recomendado ceder a Edimburgo uma série de competências em matéria fiscal e eleitoral.

Os três principais partidos britânicos – conservadores e liberal-democratas, no governo, e trabalhistas – se comprometeram a repassar competências à região na reta final do referendo, em uma tentativa desesperada para impedir a vitória do “sim”, que liderava as enquetes.

A previsão é que, em janeiro de 2015, o governo britânico apresente uma minuta de legislação que abrirá o caminho para a nova Escócia e marcará um precedente para as demais regiões do Reino Unido.

Apesar do fracasso nas urnas, os independentistas do SNP se orgulham de ter rejuvenescido o eleitorado escocês, agora também mais interessado em política, e conseguido mais autonomia para a nação histórica.

Durante a campanha, o SNP, que triplicou seu número de filiados até 92.000, se esforçou através do grupo “Yes Scotland” para apresentar uma visão otimista do autogoverno, com a promessa de uma sociedade mais justa e livre de armas nucleares.

Por sua vez, a campanha favorável à permanência no Reino Unido, “Better Together”, optou por ressaltar os riscos da secessão, e contou com a ajuda da classe empresarial britânica, que na última hora advertiu aos cidadãos que perderiam poder aquisitivo.

A incerteza econômica e sobre a libra esterlina – que os independentistas reivindicavam apesar da recusa de Londres -, assim como o temor pelas pensões e a uma possível fuga de empresas, pesaram na decisão final dos escoceses, que se deixaram seduzir pela promessa de uma maior autonomia.

Além de ser considerado uma referência democrática, o referendo de independência transformou à sociedade escocesa, mais veemente na hora de reivindicar seus direitos, e mudou para sempre o panorama político britânico.

Em seu avanço entre o eleitorado, o SNP roubou votos do Partido Trabalhista escocês, que ficou imerso em uma crise interna que ameaça as chances do Partido Trabalhista britânico nas eleições gerais de maio de 2015.

Por outra parte, longe de assumir caladamente sua derrota, os independentistas de Sturgeon se propuseram a meta de conquistar o parlamento de Londres nesse pleito, quando aspiram obter cadeiras suficientes para ter influência na formação de um governo se nenhum partido nacional conseguir maioria.

Quanto a Alex Salmond, o antigo líder poderia apresentar-se a um dessas cadeiras, o que significaria seu retorno ao cenário político nacional. EFE