Renúncia do primeiro-ministro tunisiano inicia nova etapa da transição

  • Por Agencia EFE
  • 09/01/2014 17h05

Miguel Albarracín.

Túnis, 9 jan (EFE).- A renúncia apresentada nesta quinta-feira pelo primeiro-ministro tunisiano, Ali Laridi, ao chefe do Estado, Moncef Marzouki, de acordo com o roteiro acertado em outubro passado entre o governo e a oposição, inicia uma nova fase da transição política tunisiana, que já vislumbra seu final.

O chefe do Executivo anunciou sua renúncia e “a de todo o seu Executivo” em um breve pronunciamento no Palácio Presidencial de Cartago após uma reunião com Marzuki.

“Como prometi há tempos, agora que há uma visão clara e uma garantia clara sobre o futuro do país, que está a ponto de entrar em uma nova etapa com a preparação das eleições, apresento a renúncia do governo que dirigi durante 10 meses, aproximadamente”, disse Laridi.

O presidente do Executivo detalhou que seu gabinete permanecerá “até a conclusão dos assuntos correntes a espera da formação do futuro governo”, que o tecnocrata Mehdi Juma, cuja designação oficial está prevista para até dois dias, dirigirá.

Laridi deu esse passo-chave, que deveria contribuir para distender as tensas relações entre governo e oposição, depois que a Assembleia Nacional Constituinte (ANC) designou na madrugada passada os nove membros que comporão a Instância Superior Independente para as Eleições (ISIE).

A ISIE deverá fixar e supervisionar as eleições legislativas e presidenciais cuja data ainda não foi anunciada.

No dia 5 de outubro, a aliança governista dirigida pelo partido islamita Al-Nahda se comprometeu a ceder o poder a um governo de consenso em troca de que a Assembleia Constituinte acelerasse seus trabalhos para a redação da nova Constituição, cuja conclusão é esperada para a próxima semana, e da realização de eleições.

A partir de sua nomeação, Juma terá duas semanas para completar a formação de um novo governo que estará formado por “independentes” tecnocratas, e cuja principal missão será tirar o país da profunda crise política e conduzir a transição até as eleições, que poderiam acontecer no início da primavera.

Em declarações a uma rádio nacional, Juma assegurou hoje que sua equipe será composta por 17 ministros.

A renúncia de Laridi coincide, ainda, com um momento de agravamento das tensões sociais com vários movimentos de protesto que começaram na semana passada.

Várias manifestações foram convocadas desde sexta-feira passada para denunciar o artigo 66 da Lei de Finanças de 2014, que estabelece um aumento dos impostos que taxam os veículos agrícolas e de transporte.

Para frear essa nova onda de rejeição, que se estendeu pelas regiões mais pobres do interior do país, Laridi anunciou nesta manhã a suspensão desses encargos.

Nas regiões de Kaserín, Gafsa e Sidi Buzid, a União Geral de Trabalhadores Tunecinos (UGTT) também convocou greves, protestos e paralisações para exigir melhoras sociais, trabalhistas e econômicas.

Nas cidades de Meknasi (Sidi Busid) e de Tela (Kaserín), manifestantes queimaram várias delegacias.

Além disso, em Tatawin, capital da província homônima, várias pessoas queimaram carros da polícia e incendiaram a sede local do partido islamita Al-Nahda.

A renúncia de Laridi é a segunda de um primeiro-ministro islamita de Al-Nahda nos últimos dez meses.

Em março passado, o então chefe do governo, Hamadi Jabali, se viu forçado a renunciar depois que seu partido rejeitou sua proposta de dirigir um governo formado por personalidades independentes, como exigia a oposição.

Os assassinatos dos dirigentes de esquerda Chukri Bel Aid, em 2 de fevereiro de 2013, e Mohammed Al Brahmi, em 25 de julho de 2013, desencadearam uma profunda crise política e econômica que chegou a paralisar a transição política.

O roteiro traçado em outubro pelo governo e a oposição significou o primeiro passo para desbloquear a situação que, com a formação de um novo Executivo, deveria continuar seu avanço rumo à normalização.

Vários analistas consultados pela Agência Efe consideram que a chave do sucesso do governo de Juma estará em sua capacidade de atrair tanto os sindicatos e a oposição como a organização patronal.

Além de dirigir o país enquanto as novas eleições são preparadas, Juma, segundo os analistas, deverá continuar a luta contra o terrorismo, dissolver as islamitas Ligas de Proteção da Revolução, restabelecer a confiança, relançar a economia e acometer profundas reformas estruturais, sem esquecer a necessidade de reduzir a taxa de desemprego, a carestia de vida, a dívida externa e os abismos sociais regionais. EFE